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LinguagemImprimirDicionário critico

Verdade/Verosímil

José Augusto Mourão

A verdade e o verosímil coexistem como duas posições suplementares na estrutura do conhecimento. Em sentido lato, o termo "verdade" é sinónimo de autenticidade. É nesse sentido que se fala de verdade na arte ou na política. A ideia de verdade está ligada a um processo. O processo de verdade tornou-se difícil de enunciar e de acreditar. Por um lado, a semiótica passou a falar de veridicção, em vez de verdade;  por outro lado, a pragmatização geral do sentido impossibilita qualquer pretensão de verdade. A verdade é necessária. O sujeito que fala é alguém que tem a intenção de dizer a verdade, e não apenas de comunicar ou informar.

Palavras chave: sentido, realidade

Há noções que nos chegam nimbadas por uma aura transcendental - sentido, ser, bem, belo, verdade. A filosofia elaborou três conceitos de verdade: o da verdade-correspondência (na concepção aristotélica a verdade é uma qualidade do juízo: é feita da correspondência entre o acto de juízo e o real), o da verdade-coerência (o verdadeiro é o todo, dizia Hegel) e o da verdade pragmática (a ideia de verdade interpreta-se através da ideia da utilidade que já é uma componente na análise da acção).

A verdade não cai do Céu. É um processo de desvendamento (aletheia), imanente ao mundo - algo que o New Age e o Paganismo partilham ao rejeitar a crença em fontes "externas" da verdade e do sentido. Em primeiro lugar, a ciência moderna elabora-se separando-se do tipo de saber que se chamava filosofia. Os teoremas matemáticos fornecem o paradigma da verdade imutável. Ora, verdade e sentido são noções que têm uma validade restrita. Aquilo que a lógica matemática tenta tematizar é, evidentemente, o conceito de verdade, de Tarski a Gödel.. No sentido lato de manifestação dos entes no seu ser, a verdade nunca se apresenta sob uma forma pura. A nomeação poética dos entes chega-nos inteiramente penetrada pelo mito e pela ficção. O belo é uma verdade que não se opõe ao falso. A semiótica fala de "efeitos de verdade", ou de patamares da veridicção, rejeitando qualquer ontologia a esta categoria. Falando de estratificação de patamares, P. A. Brandt liga os problemas da veridicção à estrutura da comunicação intersubjectiva. É assim que este autor dá conta da enunciação irónica, ou da noção de verdade como efeito do verosímil, a partir dos registos da retórica (do discurso de persuasão ao da ficção)
[1].
J. Derrida fala da verdade como "efeito semântico", algo que tem lugar sobre um fundo abissal, sem perder a sua consistência
[2]. A realização completa da verdade não é um "saber absoluto", mas uma performatividade textual que não se deixa definir em termos de saber ou de verdade. Os juízos de verdade são sempre finitos, contingentes e não podemos definir o que é a verdade, salvo que é o próprio funcionamento de toda actividade de pensamento. Mas a verdade é necessária: "e falso sequitur quodlibet", diziam os escolásticos[3].

O problema da filosofia foi sempre o da mobilidade das coisas
[4]. O saber autêntico devia ser imutável porque incidia, não sobre as aparências (a doxa), mas sobre os princípios (episteme). Em Platão é em nome da verdade, a sua única referência, que (a mimese) é julgada, proscrita ou prescrita. Diz Diógenes Laércio que Pitágoras comparou a vida a uma edição dos Jogos Olímpicos e atribuiu aos filósofos a função de andar à caça da verdade quando: "comparava a vida com os Jogos Olímpicos a que alguns vão competir pelo prémio e outros vão para vender mercadorias, mas os melhores (fazem-no) na qualidade de espectadores, do mesmo modo, na vida, digo, os escravos andam à caça da glória e do lucro, os filósofos, em contrapartida, da verdade" (Diógenes Laércio, 1980, VII, 8: 326-329). O homem pode colocar-se frente à verdade de dois modos: ou a considera como algo possuído no passado ou no presente, ou a procura porque acredita que pode estar situada no futuro. Platão escreve no Fedro (Fedro 247 d-248 c) que a alma, seja divina ou humana, é habitada pela necessidade fundamental para assimilar alimentos espirituais como a verdade ou o sentido do ser. No Laques Sócrates é chamado para que decida qual a melhor maneira de ensinar a valentia aos jovens. A discussão sobre o sentido da palavra valentia parte do pressuposto de que a valentia é boa. Não se sabe o que é, mas sabe-se que se tem de ser valente. O que significa que a palavra, antes de designar um conceito, remete para um topos, isto é um princípio de avaliação positiva das acções humanas. Já os sofistas ensinam um saber prático: conhecimento do que é conveniente, factível. A norma última não é a verdade mas a utilidade. A "aparência de verdade", o verosímil, a opinião (a doxa), e a formação da opinião tornam-se mais importantes do que a verdade. É contra esta presunção sofística do saber que se ergue Sócrates. Ele desmascara o falso saber dos sofistas como ignorância. Para Sócrates a verdade deve ser procurada em público, em diálogo. Quer a hodierna teoria consensual da verdade como a teoria da coerência têm aqui o seu fundamento. A verdade corresponde a uma total coerência das afirmações. A verdade, diz a teoria da correspondência, é a concordância do meu juízo com os factos reais.

O domínio em que trabalha a escrita não é o verdadeiro nem o falso, mas o indecidível. Nenhum texto atinge a significação que visa. Se consideramos a relação do texto com a coisa (ao mundo) segundo os esquemas filosóficos clássicos - adequação, correspondência, desvendamento, presença -, vemos que são todos desadequados para a designar. A escrita inscreve a verdade "num sistema em que ela é apenas um lugar e uma função"
[5]. Qualquer debate sobre o verdadeiro é regido pelo jogo das estruturas retóricas ou sintáxicas sobre as quais a questão do "verdadeiro" e do "falso" não tem qualquer pertinência. Consideremos, por exemplo, o discurso judiciário. Este discurso visa os actos de acusação e de defesa. O seu critério é a verosimilhança (é provável que x tenha cometido este crime: vimos o cadáver e encontramos sangue da vítima na sua camisa). O mecanismo principal deste tipo de discurso é o entimema, que designa um silogismo incompleto. Obtém-se uma prova racional através de um raciocínio de tipo silogístico: aquele que cometeu o acto y é aquele que tinha interesse no acto y; ora x tem esse interesse; logo x cometeu y. A sofística encontra hoje a sua expressão maior na ideologia que podemos definir como "verdade-para", logo uma verdade parcial absolutizada, uma perspectiva privilegiada. A publicidade e a propaganda são formas moderadas deste emprego da verdade ao serviço de interesses económicos ou políticos. A sujeição da verdade a um objectivo leva necessariamente à sua relativização. Há uma clara semelhança entre a teoria dos actos de fala e a linguística de Port-Royal e de Bally[6]. As forças ilocucionárias "ordem" e "asserção" indicam em que consiste a enunciação, comentam a enunciação do enunciado e não um objecto exterior a esta enunciação. Pelo seu carácter autoreferencial, estas forças escapam a qualquer juízo em termos de verdade ou de falsidade. A teoria dos actos de fala é um exemplo da concepção veritativa da significação. Insuficiente, por ter abandonado o que parecia mais original na noção de força ilocucionária. Esse retrocesso consistiu em introduzir o conceito de "condição de felicidade" que substituía as "condições de verdade" da concepção veritativa da significação. Searle, por exemplo, caracteriza a força ilocucionária de ordem utilizando uma condição de superioridade hierárquica do locutor sobre o destinatário; sem esta condição, este acto de ordem não pode ter uma realização institucional. Ora, o acto ilocucionário como o descrevem os filósofos da linguagem, pertence à realidade objectiva: é necessário perguntar se X, ao dizer Vem a Y, deu ou não realmente uma ordem. O que significa abandonar o carácter autoreferencial que parecia constituir o núcleo da teoria. Também não podemos pensar quer exista na significação um sector puramente objectivo que não esteja contaminado por intenções pragmáticas.O conceito de polifonia leva a descrever o sentido do enunciado como uma espécie de diálogo cristalizado, melhor dizendo, o sentido do enunciado consiste numa descrição da enunciação e esta descrição consiste em fazer aparecer a enunciação como o confronto de diversas vozes que se sobrepõem ou se respondem umas às outras. Se nos colocamos ao nível do locutor, o enunciado deve ser considerado como um monólogo. Porém, a um nível mais profundo, o locutor do enunciado põe em cena, no seu monólogo, um diálogo entre vozes mais elementares, a que Ducrot chamou "enunciadores"[7]. O pragmatismo reduz a verdade à utilidade ou aos efeitos que os nossos pensamentos, palavras e conceitos têm na nossa conduta. Reduzindo a verdade teórica a uma convicção de ordem prática, levando a inclinar-se diante da instância do consenso como o cientista o faz no mundo visível, neutraliza-se o juízo crítico, fechando cada um nas verdades da sua tribo e tornando incriticáveis as crenças que nela predominam. A cultura não é uma questão de verdade mas de valores. É por isso que as culturas diferem ou se opõem sem que alguma esteja no erro. A concepção "perspectivista" da verdade destronou de vez a pretensão (filosófica) de uma verdade com valor absoluto e imutável.




[1] Brandt, P. A., Quelques remarques sur la véridiction, Actes Sémiotiques, Documents, IV, 31, 1982,
[2] Derrida,J.,  Limited Inc., Northwestern University Press, 1988, p. 146.
[3] (do falso resulta aquilo que se quer)
[4] Aristote, Physique, Livre I, 185 a 12-13, Paris, Les Belles Lettres, 1926, p. 31.
[5] Derrida, J. , L'Écriture et la Différence, Seuil, 1967, p. 431.
[6] Searle, J. R. , Speech Acts, 1969.
[7] Ducrot,O.,  Polifonia y Argumentación, Cali, Colombia 1990.

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