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LinguagemImprimirDicionário critico

Teorias da Linguagem

Herman Parret

O termo linguagem designa a faculdade do homem se exprimir e comunicar o pensamento e os sentimentos por meio de sistemas de signos convencionais. Por extensão, linguagem começou a designar, de uma forma mais ou menos sistemática, qualquer sistema semiótico. Já a língua é o sistema gramatical implícito, comum a todos os locutores seus falantes. Dada a importância que o conceito adquiriu nas próprias ciências humanas, ele revestiu-se de múltiplos sentidos alargados. Mas a especificidade da linguagem humana contém traços estruturantes como sejam: a capacidade de exprimir, para além do real, o possível; a capacidade de falar da própria linguagem; a capacidade lógica e argumentativa; e ainda a possibilidade de exprimir a memória e a prospecção. Dada a sua versatilidade, a origem da linguagem foi desde sempre discutida nas três vertentes possíveis: como origem divina; como origem animal; como origem e essência do humano.

Palavras chave: oralidade, origem das línguas, signo, escrita, sentido, código, relevo

Introdução

Com o termo linguagem deparamos com um sério problema de tradutibilidade. Como existe, em francês, uma ampla gama de termos recorrentes (língua, discurso, fala) possuindo cada um deles um
sentido subtilmente diferente, a determinação de linguagem será necessariamente específica no caso deste idioma[1]. Em alemão, só existe um termo, Sprache, que recobre o sentido dos quatro termos franceses, enquanto a única distinção que se consegue estabelecer em inglês é a de uma variação gramatical mínima, entre language, termo genérico, e a language, termo específico. Language indica então um comportamento humano, uma capacidade com a qual está dotada a raça humana e que torna possível a sociedade dos homens, precisamente porque language é um sistema que permite, sem equívocos, a codificação e a descodificação, mesmo que o número de frases produzidas e compreendidas seja infinito, como defende a teoria gramatical de Chomsky. Aliás, esta capacidade é frequentemente apresentada, em psicolinguística ou em «filosofia do espírito», como sendo biológica. A language, por oposição, designa uma língua ou um idiolecto específico.

Será, consequentemente, da primeira importância compreender a semântica de linguagem, tendo em conta as particularidades semânticas do francês, do português, das línguas românicas e das outras línguas. Constata-se que, a partir da Idade Média, depressa surgem múltiplas significações para o termo linguagem. O sufixo - agem (acticus em latim) significa aquilo que opera, aquilo que age. Sem dúvida, essa cambiante opera sempre na linguagem enquanto capacidade activa, dinâmica e produtiva. Primeiramente grafado lentguage (por volta de 980), o termo designa efectivamente a faculdade do homem se exprimir e comunicar por meio de um sistema de signos, por analogia igualmente aplicado aos animais. Mais tarde, passa a designar o modo de expressão de um indivíduo e, a partir do século XVII, o de um grupo ou de uma profissão. A partir do século XIX e, por extensão, o vocábulo linguagem serviu para designar de maneira mais ou menos sistemática qualquer sistema semiótico, como por exemplo a linguagem dos perfumes, a linguagem das cores. Todas estas significações da linguagem serão organizadas nas páginas que se seguem.

Mas, antes de avançar com essa organização, é necessário constatar que duas oposições, em francês como em português, são essenciais: linguagem versus língua e linguagem versus fala (e, eventualmente, discurso). Em relação ao primeiro par, linguagem versus língua, a diferença nem sempre é muito clara e foi somente a partir do século XIX e, sobretudo, do século XX, que os dicionários se tornaram mais consequentes. Nos casos em que o termo língua se encontra geralmente reservado ao domínio «verbal» e definido pelo seu carácter vocal, linear e duplamente articulado (ver mais adiante), o termo linguagem é cada vez mais «semiotizado» (qualquer sistema de signos que sirva para a expressão e a comunicação é uma linguagem) ou então «psicologizado» (a linguagem torna-se então uma faculdade universal, uma capacidade psicológica de produção e de compreensão).

No seu Cours de Linguistique Générale (1916), Ferdinand de Saussure clarificou as definições de linguagem, língua e fala, e ainda hoje seguimos, no exercício das ciências humanas, a maior parte das suas proposições. Digamos, com Saussure, que cada língua é um sistema particular, com as suas estruturas próprias, que realiza à sua maneira a faculdade universal da linguagem. A língua, manifestada por um sistema de signos convencionais e arbitrários, é descrita por Saussure como um produto social oriundo da faculdade de linguagem. Este conjunto de convenções necessárias da língua é adoptado pela sociedade para permitir que os seus membros exerçam a sua faculdade de linguagem. Esta faculdade de linguagem é, assim, uma realidade profunda, multiforme e psíquica, dificilmente analisável e antes pressuposta no trabalho empírico da linguística. Por oposição, e enquanto instrumento criado e fornecido pela colectividade, a língua é um sistema homogéneo e um princípio de classificação para a linguística. É, por isso, um objecto reconstruído de maneira teórica a partir do domínio observável que lhe é fornecido pela materialidade dos sons e dos sentidos implicados.

O trabalho epistemológico de Ferdinand de Saussure, fundador da linguística estrutural, estava sobretudo ancorado na delimitação da língua e da fala, dicotomia fundadora de toda a construção científica que é a linguística. Mas é preciso ter em conta que o linguista é obrigado a apoiar-se num estudo da fala para alcançar a língua, que é forçado a desmontar enunciados concretos produzidos no registo da fala para reconstruir o sistema diferencial da língua. Com a língua, diz Saussure, tocamos o elo social. E descreve frequentemente a língua «como um tesouro colocado pela prática da fala nos sujeitos pertencentes à mesma comunidade, um sistema gramatical existente virtualmente em cada cérebro ou, mais exactamente, nos cérebros de um conjunto de indivíduos». De facto, a língua nunca está completa num qualquer indivíduo separadamente, só existe perfeitamente nas massas. A língua é, pois, o sistema gramatical implícito, comum a todos os locutores, enquanto que a fala é o acto individual de cada um. É impossível modificar a língua individualmente: modificar esse «produto social» seria condenar-se a não mais poder comunicar. Mas é óbvio que os locutores nunca utilizam todas as possibilidades oferecidas pela língua, seja lexical seja sintaxicamente.

Antes de sistematizar um pouco as significações da «linguagem», convém notar que diversas disciplinas das ciências humanas se reclamam desse conceito. A linguística esforça-se por reconstruir a natureza e as funções da linguagem em geral, mas concentrando-se com maior evidência nas línguas, não apenas as línguas standard utilizadas na vida quotidiana das culturas e das sociedades mas, igualmente, as perturbações da linguagem - como a afasia, a disfasia, a dislalia, a dispraxia. Estas perturbações da linguagem são frequentemente estudadas na perspectiva de uma psicologia cognitiva, porque convém postular uma relação intrínseca entre essas perturbações da linguagem e a «vida mental» dos sujeitos. A psicologia cognitiva (da qual deriva a pretensa «linguística cognitiva»), que frequentemente resulta na neuropsicologia, reclama possuir um grande poder de explicação dos fenómenos linguísticos, tal como, aliás, a psicanálise que muitas vezes é vista como o verdadeiro método antípoda da psicologia cognitiva. Jacques Lacan, «leitor de Freud » e teórico incontornável da teoria e da prática psicanalíticas, colocou a linguagem no centro da sua concepção do sujeito humano: «O inconsciente está estruturado como uma linguagem». Já Freud havia sublinhado a importância da linguagem na descoberta analítica do inconsciente, ao afirmar que, em seu entender, os erros da linguagem, por exemplo os lapsos, revelam um desejo inconsciente. Todavia, em Lacan, a posição da linguagem na vida psíquica torna-se ainda mais
pregnante. Desta feita, ele adapta um teorema de Saussure onde o signo é definido como a relação simétrica entre um significante e um significado, destruindo essa simetria: para Lacan, o significante é primeiro relativamente ao significado, quer isto dizer que a criança mergulha num banho de linguagem, essencialmente um conjunto de imagens sonoras, o que irá determinar para sempre o desenvolvimento da sua vida psíquica.


Os sentidos do termo «linguagem»

Acabam de ser esboçadas distinções teóricas entre linguagem, língua e fala, tal como foram propostas por Ferdinand de Saussure, fundador da linguística científica. Se prestarmos agora atenção ao emprego do termo «linguagem» na vida quotidiana, reflectido nos dicionários, constataremos uma enorme abundância de ocorrências que tentaremos, de seguida, organizar um pouco numa ordem de derivação semântica. Permitimo-nos distinguir cinco estádios nessa derivação.

I. O sentido de base da «linguagem»
Como já foi sugerido anteriormente, a linguagem é uma faculdade que os homens possuem para exprimir os seus pensamentos e sentimentos e para comunicar entre si por meio de um sistema de signos convencionais (vocais ou escritos) constituindo uma língua. Essa faculdade pode ser vista como uma função característica e essencial da espécie humana. Tal função é «natural», como a marcha e a visão, e exerce-se necessariamente com o recurso a um suporte exterior (sobretudo a voz ou a escrita). Pressupõe-se geralmente que essa faculdade é inata e não adquirida pela aprendizagem. Para simplificar, provisoriamente (pois, voltaremos a este ponto), dir-se-á que o funcionamento da linguagem é duplo: inclui uma função de expressividade e uma função de comunicabilidade. «Faculdade» e «função» são duas noções que não recobrem totalmente o mesmo conteúdo: por «faculdade» entende-se sobretudo uma capacidade psicológica, mental ou cognitiva; enquanto que «função» sugere antes um nível generativo de profundidade pressuposto, reconstruído e abstracto.

As funções da linguagem são consideradas universais e cobrem assim todas as línguas empíricas do mundo. Um grande debate ficou em aberto desde o século XVII -estamos a pensar na concepção da linguagem de Port-Royal -, considerando a universalidade da gramática, das suas subdivisões, como a fonética, a morfologia, ou até a prosódia, e os seus fenómenos particulares como a conjugação, a ordem das palavras na frase, etc. A concepção da gramática em Chomsky é dita «cartesiana», quer dizer que postula a universalidade da gramática que assim existiria na profundeza do espírito humano enquanto tal. Não há consenso neste ponto e a maior parte dos filósofos da linguagem fica-se pela universalidade das funções da linguagem sem alinhar na universalidade da gramática.

Já se mostrou que a funcionalidade da linguagem é dupla : inclui uma função de expressividade e uma função de comunicabilidade. A questão de saber como deve ser determinada essa função de expressividade ou, por outras palavras, a relação da linguagem com o pensamento (onde se diz que a linguagem «exprime» o pensamento) permanece um ponto de controvérsia epistemológica em muitas filosofias da linguagem. Por um lado, há o ponto de vista de certos psicolinguistas ditos «cognitivistas» (como, entre outros, Jerry Fodor) que postulam que o pensamento é uma espécie de álgebra mental anterior ao processo de aquisição da linguagem: a «vida do pensamento» precede autonomamente a «vida da linguagem». De facto, segundo este ponto de vista, a linguagem, enquanto meio de «exprimir» o pensamento, seria um mero instrumento deste. Não é de todo esta a convicção dos fenomenólogos, como o filosofo francês Maurice Merleau-Ponty que claramente enuncia: «o pensamento nada tem de interior, não existe fora do mundo e fora das palavras. Pensar, é "falar-se", dizer de certa forma coisas a si mesmo. Assim, a linguagem é indispensável ao pensamento e ao seu desdobramento: se é verdade que a linguagem é a expressão do pensamento, é preciso acrescentar que o pensamento é uma palavra interior». Equivale a dizer que a linguagem «modela» o pensamento, que é uma faculdade muito activa e transformadora. Há muitos casos em que a linguagem parece ultrapassar o pensamento: se tomarmos o caso do lapso, por exemplo, é óbvio que dizemos algo diferente daquilo que queríamos dizer e, no caso em que se fala para não dizer nada, no falar quotidiano e conversacional, a linguagem já não está conectada com um pensamento a exprimir. A «vida mental» dependente, quando não mesmo determinada pela «vida da linguagem», é uma concepção que se encontra em Ferdinand de Saussure. O autor esforça-se por convencer-nos que a linguagem, de entre todos os signos exteriores pelos quais se pode manifestar o pensamento, é aquele que «enquadra» de mais perto o pensamento. Segundo ele, existe um amplo domínio do pensamento que seria impossível sem a linguagem. Foi, com toda a evidência, este o ponto de vista vigorosamente defendido pelos diferentes tipos de
estruturalismo a partir dos anos sessenta do século passado, em consonância com o ensino do próprio Saussure. Por conseguinte, a proposta de uma «função de expressividade» da linguagem (essencialmente, a «expressão do pensamento») não está desprovida de riscos epistemológicos.

É certo que a linguagem possui outras funções além de exprimir (o pensamento ou as emoções) e de comunicar. Alguns teóricos da linguagem propuseram esquemas subtis e adequados. Mencionamos dois: Karl Bühler e Roman Jakobson. Bühler, de modo bastante tradicional, aliás, distingue três funções da linguagem : a função emotiva, a função conativa e a função referencial. A função emotiva corresponde à primeira pessoa, o emissor da mensagem, e caracteriza a atitude do locutor (o emprego das exclamações é um exemplo típico). A função conativa remete para o destinatário (o emprego do vocativo e do imperativo sublinha-a). A função referencial está centrada no contexto referencial e descreve o mundo tal como é. O esquema de Jakobson é mais elaborado: acrescenta três funções à lista de Bühler: a função fática, a função poética e a função metalinguística. A função fática encontra-se nas mensagens que «servem essencialmente para estabelecer, prolongar ou interromper a comunicação, para verificar se o circuito funciona»; está portanto anexada ao «canal de comunicação». A função metalinguística toma a linguagem como objecto, oferece, por exemplo, uma reflexão sobre o sentido de uma palavra. Quanto à função poética, remete para a valorização da mensagem em si. Compreender-se-á que estas funções da linguagem são universais, na medida em que se encontram em qualquer situação linguageira e em qualquer cultura e sociedade.

II. Alargamento por metonímia
O sentido de base que acabamos de circunscrever alarga-se por metonímia: a linguagem é então considerada como a realização dessa faculdade. Nesse caso, «linguagem» significa: os
códigos linguísticos humanos na sua totalidade, ou ainda, a totalidade das línguas do mundo ou, mais geralmente, a totalidade dos sistemas de signos vocais, gestuais e gráficos do mundo. Pode restringir-se essa classe dos sistemas de signos, acrescentando um critério suplementar. Bastará para isso exigir, por exemplo, a imposição da normatividade social. Só é «linguagem» o sistema de signos sancionado pela norma social, ou seja, o emprego dessa linguagem deve ser de uso aceite e reconhecido por uma comunidade cuja extensão pode variar. Um critério suplementar poderia consistir na dupla articulação, como foi formulada pelo linguista e fonólogo francês André Martinet. O autor impõe, para que haja «linguagem», uma dupla estrutura: a linguagem deve ser analisável em unidades mínimas de sentido, os monemas, por sua vez analisáveis em unidades mínimas distintivas, os fonemas. Esta «dupla articulação» é a propriedade essencial da linguagem enquanto tal. Claro que outras teorias, como, por exemplo, a gramática generativa transformacional, elaborada por Noam Chomsky, propuseram outros critérios, sobretudo de ordem gramatical e sintáctica.

III. Alargamento por especificação
Empregamos todos, na vida quotidiana e conversacional, ocorrências de «linguagem» muito mais específicas. Essas ocorrências enfraquecem, desviam ou encurtam o sentido de base que acabamos de apresentar. Está por fazer uma extensa lista destes usos específicos e parece que essa lista difere bastante segundo as línguas (o francês, o português, o inglês, etc.), de maneira que o problema da tradutibilidade se coloca com toda a evidência neste domínio.
Enumeramos de seguida alguns desses usos específicos sem visar a exaustividade:
A. A expressão: modo de expressão («os modos de expressão próprios da linguagem de alguém») significa a maneira de falar de alguém, o uso particular e idiossincrático da linguagem de um indivíduo.
B. A expressão: linguagem dos franceses alarga o domínio do indivíduo a uma colectividade, e indica assim características comuns da fala num grupo, num povo, numa região demográfica, numa nação. Estas características não são puramente gramaticais e lexicais mas sugerem também uma certa psicologia estereotípica que só existe por simplificação.
C. Na expressão: linguagem de uma cidade indica-se um conjunto coerente e homogéneo de signos portadores de uma significação interpretável na sua unidade. Claro que essa unidade não é tanto a manifestação de uma qualidade real, realista até, mas antes o produto de uma projecção imaginária que «idealiza» os estados heterogéneos de facto.
D. Mais específicas ainda são expressões como linguagem cuidada, linguagem familiar e, até, linguagem académica e linguagem palaciana. Com efeito, esta especificação diz respeito a um aspecto formal do uso, frequentemente ligado a uma classe social ou a uma profissão. A linguagem cuidada faz alusão, muitas vezes de maneira irónica, a uma classe social, tal como a linguagem empolada, a linguagem arcaica, a linguagem pomposa. Outras designações são menos coloridas porque menos valorativas, como a linguagem familiar, a linguagem floreada, a linguagem comum, a linguagem conversacional ou coloquial e a própria linguagem vulgar. Trata-se, com efeito, de características formais de um tipo de fala. Mais «objectivas» ainda são as especificações indicativas de maneiras de se exprimir próprias a grupos de homens, sobretudo profissionais, a uma disciplina ou a uma matéria, precisamente a linguagem palaciana. É frequente que este uso indique elementos lexicais e sintácticos característicos, próprios de um certo domínio de conhecimentos ou de actividades, como a linguagem académica ou a linguagem administrativa. Em ter cuidado com a língua encontra-se uma individualização certa: trata-se efectivamente da maneira de se exprimir, do
estilo, do tom, da tónica própria de uma só pessoa.
E. Um outro uso não diz tanto respeito à forma e ao estilo mas ao conteúdo daquilo que é enunciado. É a linguagem considerada do ponto de vista do conteúdo comunicado, referindo-se a uma dada circunstância, proferida num determinado tom: linguagem cínica, directa, hipócrita, mentirosa, elogiosa, ambígua, franca. Na expressão dirigir-se a alguém num determinado registo de linguagem faz-se alusão às ideias expressas, ao conteúdo da comunicação.
F. Finalmente, o termo linguagem torna-se plenamente pejorativo quando significa conversa fiada ou, até mesmo, verborreia, como isso não passa de conversa. Todos estes alargamentos do significado de linguagem acentuam determinados semantemas ou determinadas virtualidades semânticas do termo, que só podem ser compreendidos por via de uma contextualização pragmática.

IV. Alargamento por transposição
Entra-se assim num domínio de criatividade linguística extremamente frutífera: certas propriedades da linguagem, no sentido estrito (as supracitadas categorias I e II), são «transpostas» para «objectos» ou «fenómenos» que são, de facto, de natureza totalmente distinta. Pressupõe-se assim uma grande similitude entre a linguagem no seu sentido próprio e essas «linguagens» transpostas. Eis alguns exemplos de primeira importância.
A. A linguagem artificial. Filosoficamente, poder-se-á pretender que há «linguagem» sempre que dois indivíduos, tendo atribuído um determinado significado a um dado acto, cumprem esse acto com vista a comunicarem entre si. As linguagens artificiais, como o esperanto, não fazem outra coisa. Servimo-nos cada vez mais dessas linguagens assentes em axiomas e regras de formação dos enunciados, que evitam as ambiguidades nas línguas naturais e visam uma grande coerência formal. É o caso das linguagens de programação que, com efeito, servem de intermediário entre a língua natural dos programadores e os computadores.
B. Pode igualmente empregar-se o termo linguagem secreta ou linguagem cifrada, sistema de comunicação no qual o código é apenas conhecido por um certo número de pessoas: o codificador constrói a mensagem secreta e o descodificador tenta reconstruí-la.
C. De grande interesse, na
linguagem gestual, é a transposição da «linguagem» para o sistema próprio. Este fenómeno foi muito estudado (entre outros, por André Leroi-Gourhan, Le Geste et la Parole, 1964-65, dois volumes, centrado, aliás, no paleolítico). Ninguém contestará que a linguagem dos gestos ou a linguagem do olhar exprimem as sensações e os sentimentos dos sujeitos. Aceitemos que nem todos os gestos podem ser considerados linguagem. Há gestos que não passam de «acções» ou «actos» sem qualquer valor expressivo ou significante. Mas depressa o gesto se torna significante: fazer sinal com a mão para cumprimentar ou aplaudir é já, com toda a evidência, «linguagem». Os semioticistas interessados na gestualidade propuseram duas tipologias e tornou-se comum distinguir dois tipos de linguagens gestuais. Poderá caracterizar-se o primeiro como a classe dos gestos enunciativos: o gesto corresponde a um enunciado, a uma unidade que será uma frase ou uma sequência de frases na língua falada. Há, assim, um gesto que «diz»: «não estou de acordo consigo». Segundo o método da fonologia, distinguir-se-á então os traços pertinentes do gesto daquilo que pertence ao domínio das variantes pessoais. Um segundo tipo será a classe dos gestos que apresentam uma simetria com a estrutura da língua falada, como, por exemplo, a «linguagem gestual» dos surdos-mudos. Poder-se-á chamar-lhes gestos substitutivos, porque são gestos que se substituem à língua escrita ou falada. Outras classificações são possíveis, como, por exemplo, de um lado, os gestos naturais que acompanham uma conversação que, em geral, são facultativos e bastante pessoais e, de outro lado, os gestos convencionais. O grande linguista Roman Jakobson designava estes gestos convencionais por gestos-símbolos devido à sua arbitrariedade. Denominava ainda os gestos expressivos (expressão da vida interior do sujeito, mas igualmente expressão de uma situação exterior real) como gestos icónicos.
D. Progride-se no eixo da transposição ao introduzir a linguagem das artes (linguagem da
música, linguagem da pintura, etc.). A maior parte dos filósofos da arte aceitam a ideia de que a definição da arte como uma linguagem é fundada, sabendo que a «linguagem da arte» não é uma linguagem geral e colectiva, bem pelo contrário: o artista, de facto, na sua criatividade, promove bem mais a sua originalidade e a sua unicidade e esforça-se por comunicar as riquezas secretas da sua vida interior. Todavia, é verdade que a expressão «linguagem da arte» é sobretudo empregue para o conjunto dos meios de expressão particulares de uma arte, como na linguagem cromática e na linguagem do traço. Seria antes questão dos procedimentos canónicos com recurso aos quais o artista executa as suas ideias criativas. Chega-se ao fim desta linha de transposições com expressões como linguagem das flores ou linguagem dos perfumes. É comum atribuir-se quase convencionalmente significados a tipos de flores de acordo com uma simbologia geralmente reconhecível. Um bom florista irá compor um ramo tendo em conta esse valor simbólico característico de cada tipo de flor. De maneira mais geral, as cores e também os perfumes possuem um sentido que permanece mais ou menos estável no sentimento dos sujeitos. Não se pode evitar associar os crisântemos aos cemitérios e o encarnado das rosas é geralmente visto como estando ao serviço do amor. É certo que esse sentido pode evoluir, que é flutuante na diversidade das culturas, e a questão sobre a universalidade desses valores continua aberta: o facto do encarnado exprimir o amor, o branco a pureza, o azul a amizade, o amarelo a infidelidade, será universalizável? Independentemente desta questão, expressões como linguagem das flores, linguagem das cores, linguagem dos perfumes são perfeitamente aceitáveis como transposição última do sentido de base do termo «linguagem» (I e II).

V. Alargamento por analogia.
O caso da linguagem animal é sem dúvida o mais difícil de teorizar. São inúmeras as polémicas e controvérsias sobre este assunto. Defendemos que a expressão linguagem animal não resulta de uma transposição mas sim de uma analogia, o que significa que, na nossa opinião, não há uma verdadeira continuidade entre a linguagem humana e a linguagem animal. Estas duas formas de linguagens estão numa relação de analogia e não de continuidade. Constata-se que no mundo dos animais existem gritos e cantos como meios de expressão e de comunicação, e temos razão ao evocar as abelhas e os golfinhos como outros tantos comunicadores perfeitos. Porém, seria abusivo considerar a pretensa «linguagem animal» como uma verdadeira linguagem (no sentido da análise realizada em I e II), e seguimos firmemente Émile Benveniste, importante linguista do estruturalismo em França, quando enuncia: «Aplicada ao mundo animal, a noção de linguagem só ocorre por abuso terminológico» (Diogène, 1952). Para Benveniste, os limites da comunicação animal são múltiplos e determinantes. E enumera: «o carácter fixo do conteúdo [não há qualquer "criatividade" no sentido da concepção da gramática em Chomsky], a invariabilidade da mensagem, a relação a uma situação única (a mensagem nunca faz alusão a um passado ou a um futuro longínquos), a natureza indecomponível do enunciado, a sua transmissão unilateral, a ausência de articulação [Benveniste faz certamente alusão à concepção de Martinet sobre a dupla articulação da linguagem, isto é, em unidades desprovidas de sentido, fonemas, e em unidades dotadas de sentido, monemas]...». E Benveniste conclui: «as mensagens dos animais são globais, indecomponíveis, têm um reportório pobre e, sobretudo, há nelas uma total ausência de análise».

Existem porém, há décadas, tanto em zoolinguística como em zoosemiótica, muitos esforços teóricos que evidenciam resultados empíricos, sobretudo quantitativos, assentes na hipótese da «linguagem animal». É sabido que os golfinhos dispõem de um sistema de comunicação acústica com sinais em forma de assobios e até com a possibilidade de imitar fonemas humanos, e de os associar a determinadas situações específicas. Do mesmo modo, as abelhas comunicam através de danças e sinais sonoros, particularmente em situações de busca de alimentos. Estas «linguagens» servem sobretudo para a expressão de estados emocionais, como o apelo sexual, o alarme, as proibições, as rivalidades. Alguns zoolinguistas, como W.H. Thorpe que muito impressionou Noam Chomsky, consideram que os sistemas de comunicação animal possuem as mesmas propriedades que a linguagem humana: sublinha que as mensagens na comunicação animal são plenamente «intencionais» (porque têm como objectivo modificar uma atitude ou um comportamento), que possuem também uma sintaxe (uma vez que há coerência interna) e que são «enunciativas» (já que transmitem sistematicamente uma informação). A verdade encontra-se certamente entre estas posições radicais. É forçoso admitir que os símios antropóides acedem a uma expressão simbólica próxima da linguagem dos signos dos surdos-mudos. Além disso, exprimem perfeitamente as suas necessidades (fome e sede, desejo sexual) e até as suas emoções (tristeza e alegria), mas é certo que não são capazes de exprimir e comunicar julgamentos que liguem conceitos entre si. Aristóteles já o notara: «se os animais podem exprimir o prazer e a dor, que são sensações, não o podem fazer com a justiça e a injustiça, que são ideias». Ou seja, e é igualmente esta a nossa posição, a linguagem humana conserva a sua especificidade. Os seres humanos têm, através da linguagem, uma capacidade de alternância: na conversação e no diálogo, há um vaivém entre os interlocutores, uma verdadeira comunicação de sentido duplo, enquanto na «linguagem animal» os
sinais são emitidos unilateralmente, desencadeando uma reacção que não entra em relação no modo da linguagem. Além disso, a linguagem dos humanos exprime o possível e não apenas o real presente, o que permite a ficção e a abstracção. É capaz de compor uma infinidade de discursos e exprime igualmente elos lógicos e argumentativos, conseguindo ainda comunicar a memória e a prospecção. E, afinal de contas, a linguagem humana cristaliza-se nessa capacidade mais «nobre» que é a escrita. É importante ter em conta que estas capacidades superiores no homem não assentam numa aptidão física ou fisiológica específica da raça humana mas sim sobre a sua estrutura antropológica, como veremos ao discutir de seguida a questão da «origem da linguagem». Por todas estas razões, defendemos que a pretensa «linguagem animal» só é linguagem num sentido analógico...

Para tematizar a questão da (des)continuidade da linguagem humana e da pretensa «linguagem animal», evocaremos brevemente a problemática da «origem da linguagem» que tantas filosofias transtornou desde a Antiguidade. De Lucrécio ao século XVIII, com Condillac, Rousseau, Herder, Humboldt e muitos outros, o pensamento da linguagem foi dominado pelo questionamento sobre a sua respectiva origem. Não só pela reconstrução da origem das línguas, obsessão da linguística comparatista (de tendência indo-europeia, por exemplo) que reduzia a enorme variedade das línguas a uma quantas «línguas-mãe», quando não a uma única «língua de origem», mas igualmente pela especulação relativa à origem (da faculdade) da linguagem. Neste domínio, existem três posições possíveis: ou a linguagem é de origem divina (é um dom de Deus, como, aliás, consideram os criacionistas da actualidade), ou é de origem animal (é a tese continuísta discutida acima, posição que deve ser considerada «naturalista» e reducionista), ou então está enraizada na natureza humana e constitui a própria essência do ser humano. Esta última posição gera uma ética, rica em valores, da produção linguageira e da comunicação entre os homens.


[1] O mesmo sucede com a língua portuguesa, que apresenta idêntica diversidade terminológica (N.T.).

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