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CulturaImprimirDicionário critico

Cabana

José Bragança de Miranda

Toda a cultura é o resultado de uma diferença originária relativamente à natureza, absolutamente contingente, mas fatal pelo facto de ter ocorrido. Essa diferença tem uma origem mais lógica do que histórica. De facto, não é possível retraçar empiricamente as origens, até porque o que resta da pré-história é uma ínfima parte da vida, a mais durável e inscrita ou feita na pedra. Trata-se de uma parte ínfima e fragmentária. Esse carácter fragmentário não é uma falha ou limitação, pois a cultura é em si mesma a inscrição de formas particulares e concretas na Terra. Não surpreende, portanto, a intensa metaforização em torno de alguns elementos, como a floresta ou a árvore, ou a caverna ou, noutra ordem de ideias, os reflexos e sombras. A temática da cabana inscreve-se numa mitologia da floresta e numa mitologia das origens, para além de constituir um elemento perene da arquitectura que parece vir do paleolítico, até à contemporaneidade.

Contrariamente à caverna com a sua presença maciça, a cabana corresponde a um modelo mais flexível, quase têxtil, formado pelo entrelaçamento de elementos em si mesmos frágeis. Mas na modernidade a cabana torna-se numa entidade mítica, servindo para pensar a origem da arquitectura, e acima de tudo para combater em torno da construção. De facto, a diferença entre cabana e caverna é sintomática, levando a mitopolíticas bem distintas. No caso da cabana, fazer dela o modelo da construção primitiva e o paradigma de toda a construção surge na modernidade como uma forma de crítica da arquitectura medieval e um apelo à pureza de formas clássicas. Assim, no século XVIII a temática da «cabana primitiva» servia a M. de Frémin (1702) e a M.-A. Laugier (1756) para a crítica do ornamentalismo e do decorativismo característicos do gótico e da arquitectura medieval, com a sua insistência na fachada ou na superfície da construção. A defesa de um retorno à pureza de uma construção ideal, baseada em princípios simples e racionais, é sinal de uma mutação profunda da cultura. Laugier, por exemplo, via a sua origem numa cabana que ainda mal se distinguia da floresta, em que 4 troncos de árvore ainda enraizados na terra, ligados entre si com 4 troncos a fazer de lintel e coberta pelo entretecer das ramadas a formarem o tecto. O aparente naturalismo desta cabana mítica era ilusório, pois servia para uma idealização da arquitectura clássica grega, cujas colunas e travejamentos e a pureza geométrica constituem o protótipo da arquitectura neo-clássica da modernidade, altamente monumental. Como sucede com todas as figuras tornadas absolutas, a sua função é mais polémica e política do que técnica.

Basta pensar como a arquitectura nazi de Albert Speer se apropriou do estilo neo-clássico, o mesmo tendo ocorrido com a arquitectura soviética da época estalinista, voltando-as contra a nova arquitectura de Le Corbusier ou da Bauhaus. É certo que ao lado desta reelaboração mítica da Grécia, na modernidade romântica se assiste também à emergência da cabana primitiva, simples e perfeitamente integrada na natureza. Trata-se de uma outra versão do mito da cabana primitiva, tão bem analisado por Joseph Rykwert (On Adam's House in Paradise: The Idea of the Primitive Hut in Architectural History [1981]). Nos nossos dias é esta versão que tende a dominar, impulsionada pela crítica à desmesura da técnica e pela ideologia ecologista. Trata-se de um mito de fuga, como se encontra em Italo Cavino e no seu barão trepador, que um dia decide abandonar o solo e passa a viver nas árvores, e mesmo de fuga para o interior. Basta recordar a famosa cabanon de Le Corbusier que, à beira do mediterrâneo, possui pequenas janelas pois é no interior que tudo se passa. Mas pode também ser voltada contra o mundo. Basta pensar a maneira como Heidegger fez da cabana da Floresta Negra onde habitava uma espécie de crítica cerrada da pulsão construtivista da técnica (cf. Adam Sharr, Heideggers Hut, 2006).

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