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CulturaImprimirDicionário critico

Mão

António Fernando Cascais

A libertação da mão sempre foi tida como decisiva no processo da hominização e continua a ser um facto indesmentível. No entanto, a mão permaneceu arcaica, do ponto de vista evolutivo, porque é multifuncional. A única função em que realmente se especializou foi a preensão de precisão, proporcionada pela oponência do polegar. É esta libertação da mão que permite, por sua vez, a libertação do utensílio e o acesso, enfim, à libertação do verbo. Por outro lado, a mão humana é humana em função do que dela decorre e não por aquilo que ela é. Comandada pelos impulsos nervosos provindos do cérebro, a mão pode então deixar de ser utensílio para se tornar motor. Ao contrário do que se acreditava até Leroi-Gourhan, há uma solução de continuidade entre evolução biológica, evolução antrópica e evolução técnica.

Palavras chave: técnica, utensílio, hominização.

A libertação da mão sempre foi tida como decisiva no processo da hominização e continua a ser um facto indesmentível. A sua relevância no contexto das outras mudanças físicas na evolução que conduziu ao Homo Sapiens Sapiens que hoje somos é que tem vindo a ser revista. Leroi-Gourhan observa, a este respeito, que a libertação da mão, nos australantropos da era terciária, surge na sequência de uma série de “libertações” sucessivas, iniciada em espécies que antecedem de longe os primatas, e é sucedida, por sua vez, pela libertação do cérebro nos antropídeos. No decurso desse processo de libertação do cérebro, os territórios motores foram substituídos por zonas de associação, de carácter muito diferente, que em vez de orientar o cérebro para uma especialização técnica cada vez mais evoluída, como acontece com outras espécies, lhe abriram possibilidades de generalização ilimitadas. A espécie humana caracteriza-se precisamente por ter escapado à especialização anatómica, o que o tornou apto a quase todas as acções possíveis e a utilizar o órgão extremamente arcaico do seu esqueleto, que é a mão, para realizar operações dirigidas por um cérebro superespecializado na generalização. A única função em que realmente se especializou foi a preensão de precisão, proporcionada pela oponência do polegar, a qual, essa sim, mais nenhuma outra espécie possui, pois nem sequer é partilhada pelos restantes primatas, que só possuem uma forma simples de preensão. É esta libertação da mão que permite, por sua vez, a libertação do utensílio e o acesso, enfim, à libertação do verbo. Leroi-Gourhan esclarece que afastamento que se exprime na separação do utensílio relativamente à mão, primeiro, e no afastamento da palavra relativamente ao objecto, depois, também se exprime na distanciação que a sociedade assume relativamente ao grupo zoológico. É por isso que se pode dizer que toda a evolução humana concorre para colocar à margem do homem aquilo que, no resto do mundo animal, corresponde à adaptação específica. Por outro lado, a mão humana é humana em função do que dela decorre e não por aquilo que ela é. A libertação da mão consiste, antes de tudo, no facto de ela se encontrar livre durante a marcha, que assim adquire o seu pleno bipedismo vertical, do qual, a seu tempo, derivam sequências paleontológicas no domínio do desenvolvimento do aparelho cerebral. Comandada pelos impulsos nervosos provindos do cérebro, a mão pode então deixar de ser utensílio para se tornar motor. È este o termo da evolução que conduz ao homem actual desde os primatas, nos quais gesto e utensílio se confundem, passando pelos primeiros antropídeos, nos quais a acção da mão se caracteriza pela motricidade directa, em que o utensílio manual já se tornou separável do gesto motor, até aos nossos antepassados já humanos com os quais, talvez no Neolítico, as primeiras máquinas manuais anexaram o gesto e a mão, em motricidade indirecta, se limita a fornecer o impulso motor. A mão em motricidade indirecta corresponde a uma nova ‘libertação’, visto que o gesto motor fica liberto no âmbito de uma máquina manual que o prolonga ou o transforma. Se é muito difícil situar no tempo o momento em que esta importante etapa veio a ser ultrapassada, o certo é que, a partir desse momento, as aplicações da motricidade indirecta não cessaram de se desenvolver. Sucessivamente, a própria força motriz abandona o braço humano, para passar a desencadear o processo motor nas máquinas animais (nos veículos de tracção animal, por exemplo), ou nas máquinas automotoras (movidas a energia eólica, ou hidráulica, como, por exemplo, os moinhos), até que, por fim, a mão passa a desencadear um processo programado em máquinas automáticas, que, além de exteriorizarem o utensílio, o gesto e a motricidade, se alargam à memória e ao comportamento maquinal. Ao longo deste percurso, processo biológico e processo técnico confundem-se de algum modo, como nota Leroi-Gourhan: “Este empenhamento do utensílio e do gesto em órgãos exteriores ao homem tem todas as características de uma evolução biológica, já que se desenvolve no tempo, tal como a evolução cerebral, por adição de elementos que permitem aperfeiçoar o processo operatório sem se eliminarem mutuamente. (…) A existência e o funcionamento de uma máquina automática dotada de um programa complexo implica, tal como no respeitante aos seus níveis de fabrico, ajustamento e reparação, a intervenção na penumbra de todas as categorias do gesto técnico”(Leroi-Gourhan, 1990b: 38-39). Ao contrário do que se acreditava até Leroi-Gourhan, há pois uma solução de continuidade entre evolução biológica (regida pelas leis da evolução darwiniana), evolução antrópica (em que já intervém a linguagem e a reflexividade por ela proporcionada) e evolução técnica (com a alteração tecnológica das próprias condições biológicas e simbólicas da evolução).
Com a aquisição da marcha bípede, a mão torna-se o órgão de relação e o contacto lábio-dental deixa de ser dominante, para apenas se manter ao nível dos contactos afectivos e de determinadas operações técnicas em que a boca desempenha o papel de pinça suplementar. É a transferência do campo da relação para a mão que constitui a justificação funcional da passagem para o utensílio. Mão e utensílio revezam-se assim como suportes da nossa relação com o mundo, relação essa, por sua vez sempre mediada pela linguagem, pelo verbo. Mão, utensílio e linguagem interdependem, implicam-se e reclamam-se mutuamente na nossa relação com as coisas do mundo. Ora a nossa relação com as coisas que nos rodeiam, talvez seja a poesia que a exprime de forma mais eloquente: “A alegria das coisas não é a posse / mas a semelhança delas / com os nossos dedos / Nem as coisas têm forma própria / mas a que lhes dá a mão, usando-as” (Fiama Hasse Pais Brandão, Cenas vivas. Lisboa: Relógio d’Água, 2000, p. 18).


 
Bibliografia

Leroi-Gourhan, André - O gesto e a palavra, 1 - Técnica e linguagem. Lisboa: Edições 70, 1990
Leroi-Gourhan, André - O gesto e a palavra, 2 - Memória e ritmos. Lisboa: Edições 70, 1990

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