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CulturaImprimirDicionário critico

Multiculturalismo

Cláudia Álvares

O multiculturalismo remete para a coexistência de diferenças culturais, baseadas na etnicidade, género ou religião, constituindo o reconhecimento jurídico da igualdade de direitos de cidadãos culturalmente distintos entre si um dos maiores desafios das democracias ocidentais na actualidade. Incitando as instituições públicas a encarar a especificidade identitária de cada cidadão como publicamente relevante, o multiculturalismo fundamenta-se na impureza intrínseca a qualquer cultura, dada a experiência histórica de cruzamentos constantes. Esta perspectiva, segundo a qual o Estado-Nação consiste num produto de um imaginário simbólico comum, apela à utilização de meios culturalmente persuasivos de modo a fomentar os elos de comunhão entre os diversos grupos sociais.

Palavras chave: cultura material, religião, risco

De facto, a economia política que classicamente se desenvolve entre Adam Smith (1723-1790) com o livro An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (1776) e Jean-Baptiste Say (1767-1832) culminando com On the Principles of Political Economy and Taxation  (1817), deRicardo (1772-1823) afirma-se ao mesmo tempo como ciência de uma prática particular, a produção e distribuição da riqueza, mas com valor universal, implicando que todas as sociedades que não tivessem chegado a este estádio fossem consideradas «primitivas». A economia política surge assim como a ciência para a gestão da produção e distribuição da riqueza, servindo o mercado livre como operador para a regulação óptima de todo o processo e para a alocação dos recursos disponíveis. Começando por ser «nacional» a internacionalização do capitalismo estendeu este modelo a todo o planeta, e também a actividades que ficavam fora do estreito âmbito económico, como a cultura, o espectáculo e as artes, processo propulsionado por novos media como o cinema, a televisão, etc. As crises económicas surgidas no século XX, não alteraram basicamente este modelo, apenas regularam através do Estado e de novas teorias económicas, as actividades económicas de modo a aumentarem a eficiência ou performatividade do sistema.

O surgimento da economia primitiva implicava uma crítica à economia política clássica, voltando-se contra o seu pretenso universalismo e alguns dos seus pressupostos de base. Seja como for, é interessante verificar que as formas pré-históricas, boa parte delas muito hipotéticas, foram desde cedo usadas contra o capitalismo e a instituição do mercado e, em geral, os principais pressupostos da economia clássica. No século XX esta tendência ganhou consistência, desenvolvendo-se a crítica da economia capitalista numa série de frentes. Sendo muito variadas, distinguem-se pela diferente ponderação de alguns elementos do modelo clássico. Acima de tudo, todas compartilham a crítica do universalismo da economia formal e a ideia de que a economia não é uma esfera autónoma da actividade humana. Boa parte destes elementos encontram-se presentes já na obra de Karl Polanyi (1886- 1964), nomeadamente no influente livro The Great Transformation (1944), mas também na visão mais culturalista de Marshall Sahlins, nomeadamente em Stone Age Economics  (1974), embora a atenção ao primitivo se tivesse iniciado já no século XIX, senão mesmo antes, se pensarmos nas filosofias políticas de Hobbes e de Rousseau.

Durante o século XX a crítica da economia clássica consolidou-se e tornou-se num saber académico. A crescente influência da chamada «antropologia económica» comprova-o perfeitamente. Se a crítica do universalismo das formas económicas capitalistas é comum a todas as teorias da antropologia económica, são perceptíveis paradigmas bem diferenciados, nem sempre compatíveis entre si. É o caso, por exemplo, dos modelos neoclássicos da escolha racional e da alocação óptima dos recursos, que servem de critério para a análise das economias primitivas, sem mercado, na convicção de que, na falta de mercado, existem outras formas de racionalidades que procuram detectar. A divisão entre universalismo e particularismo passa assim para o interior da economia primitiva. Mas é certo que a maioria das variantes da antropologia económica seja altamente crítica deste tipo de estratégias. É o caso da antropologia de origem marxista, de que Maurice Godelier é um caso exemplar (cf. Un domaine contesté: l´anthropologie économique, 1974), baseado na teoria dos modos de produção e insistindo nos processos de trabalho e na tentativa de determinar a sua lógica interna e a maneira como se integram na economia global e/ou a ela resistem por meios simbólicos tradicionais. É o caso ainda da escola institucionalista dos seguidores de Karl Polanyi, que acentua os processos sociais e a tensão entre as instituições sociais, incluindo os aspectos religiosos e de aliança relativamente à economia de mercado, esforçando-se por reinscrever as práticas da economia de mercado no conjunto do social. Finalmente, na sequência do pós-modernismo e dos estudos culturais, têm vindo a ter crescente influência os estudos da cultura material, os quais insistem nos processos de troca para cuja importância já Marcel Mauss e Bronislaw Malinowski tinham chamado a atenção, procurando apreender os circuitos de troca e a maneira como eles determinam as estruturas de poder, prestígio, competição, etc., acentuando as especificidades das culturas e de práticas locais e a maneira como resistem às tendências globalizantes do capitalismo.   

Não seria demasiado arriscado afirmar que todas estas abordagens são variantes da crítica de Karl Marx à economia política. É a ele que se deve a primeira crítica do universalismo ilusório das «leis económicas» e a insistência na produção e nos processos de trabalho para a crítica do valor e do mercado. Mas Marx não é um pensador da economia, e a sua proposta de uma crítica da economia política significa libertar as relações humanas de relações de produção que as limitam profundamente. Tudo indica que a insistência de Marx na produção e nos processos de trabalho limita a sua crítica da economia, mesmo que se possa conceder que produção significa no seu pensamento o processo material de criação da história e do real, o que significa que o «presentismo» das formas capitalistas é afectado por todas as formas de produção anteriores, nomeadamente as esclavagistas e as servis características da idade Média. É esta a origem do «primitivismo» em Marx, que detecta no capitalismo e nas formas jurídicas modernas o antigo dispositivo de uso e abuso dos corpos humanos, que procura captar através do conceito de «exploração».

O facto do capitalismo se ter generalizado, abrangendo actividades não apenas ligadas à produção, mas também à reprodução e à telemática, obriga a repensar a crítica marxista à economia política e sua insistência na produção, nomeadamente de objectos. Se Marx usa a economia primitiva, esclavagista nomeadamente, para esclarecer os limites da economia política, seria preciso ainda mostrar que este tipo de economia é um caso particular, entre inúmeros outros. A chamada economia primitiva exige que se leve em linha de conta os elementos não racionais nem monetarizáveis. Este passo foi dado por Georges Bataille no livro La Part Maudite, escrito entre 1946 e 1949. Bataille faz a crítica do que denomina por «economia restrita», propondo uma alternativa que se tem revelado bastante influente. Baseado no famoso estudo de Marcel Mauss (1872- 1950) sobre a dádiva (Essai sur le don, 1924), onde analisa as práticas do potash nos índios da América do Norte e noutras economias primitivas como a da Nova Guiné. Bataille propõe-se ampliar a economia restrita de modo a incluir elementos não utilitários nem eficientes, mas ligados a despesas anti-económicas ou não contabilizadas, como as ofertas, o trabalho associativo, o trabalho doméstico, etc., não contabilizadas na economia restrita. A ideia essencial é opor ao utilitarismo da economia uma «economia geral» baseada na ideia de gasto sumptuário, de despesa sem reciprocidade, possibilitando a heterogeneidade, a pluralidade dos interesses e a individuação das práticas económicas. Nesse aspecto a crítica da economia restrita é feita em nome de uma economia mais primitiva, baseada na dádiva que sobrevive nos interstícios da sociedade capitalista, que a tende a reduzir ao mínimo e que Bataille pretende ampliar e fortalecer.

Se a economia geral é uma crítica da economia restrita, é muito duvidoso que possa constituir um programa afirmativo e positivo. Os próprios exemplos de Bataille, por exemplo o caso dos astecas, que ofereciam milhares de sacrifícios humanos para que o deus Sol continuasse a ser propício, revelam bem as dificuldades da economia geral batailleana. E mesmo se se distinguisse a dádiva pura da estrutura sacrificial, a evolução actual da economia tende a desvirtuar as teses batailleanas. À medida que a monetarização vai atingindo todas as actividades e se vai ampliando, indo além da produção de «objectos» ou mercadorias, verifica-se que o pressuposto da economia como esfera autónoma não era essencial para o modelo clássico. De facto, a economia actual desenvolve-se num delicado balanceamento entre os bens tangíveis e os bens intangíveis, incluindo crescentemente práticas de dádiva nos próprios processos de monetarização. É o caso da nova economia digital, em que os jornais on-line só podem sobreviver oferecendo parte dos conteúdos, ou da Google, que oferece uma série de serviços gratuitamente, alcançando com isso enorme rentabilidade. A dádiva é interiorizada na economia capitalista.  

Em suma, a economia primitiva retorna constantemente ao presente, sob formas muito distintas. Tal como Marx mostrara sobre a «exploração» também Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Sobre a Genealogia da Moral (1887), mostra como na modernidade sobrevive e assume novas formas uma economia do sacrifício, que continua a determinar todos os comportamentos, de maneira dissimulada. Tendo deixado de ser religioso e dispensando os sacrifícios humanos, é nessa lógica do poder arcaico, agora secularizada, que se baseia uma espécie de economia paralela da vida, oferecida em sacrifício ao Estado e à guerra, ao espectáculo e ao crédito. Daí não ser possível uma economia geral, que revela os limites da economia política, mas apenas uma crítica da economia geral ou generalizada, a qual, nas suas formas actuais passa por condições e possibilidades impensáveis nos séculos XIX e XX, quando as economias primitivas começaram a afectar o racionalismo económico.

 

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