Warning: mysql_real_escape_string(): 56 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 56 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 56 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 56 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

CulturaImprimirDicionário critico

Primitivismo

José Bragança de Miranda

Crítica do primitivismo (em arte)

Sendo o chamado primitivismo um fenómeno complexo, afectando todas as esferas da vida moderna, a sua influência nas artes dos princípios do século XX é decisiva mas também sintomática da ambiguidade que o caracteriza. Primitivo seria o que corresponde a um momento anterior da história, indicando uma insuficiência, e, simultaneamente, algo mais espontâneo, or estar mais próximo das "origens".

Sendo o chamado «primitivismo» um fenómeno complexo, afectando todas as esferas da vida moderna, a sua influência nas artes dos princípios do século XX é decisiva mas também sintomática da ambiguidade que o caracteriza. Está ao mesmo tempo na origem de uma profunda mutação artística, nomeadamente da vanguarda, e contaminada pelo etnocentrismo que encara a modernidade ocidental como o culminar do processo civilizacional. Primitivo seria o que corresponde a um momento anterior da história, indicando uma insuficiência, e, simultaneamente, algo de mais espontâneo, por estar mais próximo das «origens». Mas também, uma alternativa à arte estética que se vinha constituindo desde o Renascimento. Esta última posição acabou por ser decisiva nas artes. Por um lado acentuando a espontaneidade, como sucede com a valorização da arte das crianças por Klee e os expressionistas alemães, ou ainda a arte dos loucos, como sucede com o influente livro do psiquiatra alemão Hans Prinzhorn (1886 - 1933) Bildnerei der Geisteskranken (A Arte dos Doentes Mentais), publicado em 1922. A ideia de uma criatividade natural, ou de que todos são artistas, tem origem nesta tendência, que acabou por constituir um género das artes, a outsider art, onde se inclui a arte naive, a Art brut de Dubuffet, a graffiti art, etc.

Entre os usos mais interessantes do primitivismo é de realçar a maneira como foram usados os objectos ultramarinos e ligados a rituais e mitos locais contra o cânone estético da arte, tanto na literatura, como sucede com o expressionismo alemão, mas acima de tudo nas artes plásticas. Radicalizando o exotismo do século XIX de que Gauguin é um bom exemplo, por volta de 1905 os artistas estavam a coleccionar objectos africanos, nomeadamente máscaras, como é o caso de Derain e de Vlaminck, e quase na mesma época também de Pablo Picasso, que se tornou num caso paradigmático do primitivismo com o conhecido quadro Les Demoiselles d’Avignon (1907). O ataque à perspectiva e à mimesis naturalista abriu o caminho ao vanguardismo e experimentalismo, estando na base da expansão das artes que ocorreu durante todo o século XX. Encontra-se uma primeira teorização deste movimento de ruptura no livro Negerplastik (1915) de Carl Einstein (1885-1940), que tendo o cubismo por pano de fundo, procura refundar a arte contemporânea através da crítica dos objectos e da multi-estratificação do espaço da arte.

Não por acaso, Einstein é um dos primeiros críticos do «falso conceito de primitivismo» (sic), que se apoia em discriminações estéticas insustentáveis e num «vago evolucionismo». Sendo certo que em boa parte dos artistas existe um diálogo com os objectos africanos e ultramarinos, e mesmo a intenção de criticar a unilateralidade das formas de arte ocidentais, a «apropriação» desses objectos foi sempre ambígua, apresentando-os quer como «documentos» do passado, quer explorando-os para alimentar uma arte exangue e o mercado correspondente. Durante muitos anos remetidos para os museus de antropologia ou autorizados pelos grandes artistas do século XX, a sua entrada no museu é contemporânea da demolição crítica do primitivismo em arte. Sintoma dessa viragem são as exposições Primitivism in 20th Century Art: Affinity of the Tribal and the Modern, da responsabilidade de William Rubin e Kirk Varnedoe, organizada no MOMA de Nova Iorque em 1984; e a correspondente na Europa, Magiciens de la Terre, comissariada por Jean-Hubert Martin, que teve lugar no Musée National d'Art Moderne Centre Georges Pompidou (1989). A acerba crítica que estas exposições mereceram, apesar das boas intenções dos comissários, revela que o «conceito» de primitivo e primitivismo são politicamente problemáticos e explosivos. De facto, nos inícios do século XXI, o que está em causa é a «arte global», quer no espaço quer no tempo.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved