Côa da Humanidade
Arquitetado por geologias severas, o Vale do Côa mostra-se-nos
com uma originalíssima paisagem de recorte ondulante fazendo
lembrar o mar aqui instalado há cerca de 500 milhões de anos
atrás. E foi do fundo desse mar, num tempo geológico em que a
terra procurava as suas formas e os seus modos, que se
levantaram xistos duros e lisos, autênticas telas que viriam a
esperar até há cerca de 30 000 anos atrás para serem gravadas
por mãos sábias, num tempo já humano, de quotidianos nómadas
profundamente imersos na natureza envolvente. A vida que foi
beber a sua origem à água ancestral foi, assim, também o ponto
de partida para a Arte. Dezenas e dezenas de gerações num
impulso criador praticamente ininterrupto eternizaram a vida num
suporte sólido e durável, em mais de 1500 rochas ao longo de
cerca de 25 quilómetros nas margens do rio Côa e alguns seus afluentes.
O Côa guarda essas memórias mas também nos revela
numerosos vestígios das atividades dos seus autores: sabe-se
com que ferramentas gravavam, caçavam e processavam os
alimentos e como as construíam, conhecem-se os seus
acampamentos instalados nos planaltos, ocupados sazonalmente
durante a época de caça e outros ocupados em maior
permanência em praias nas margens do Côa.
Desde estas comunidades paleolíticas orientadas para a
exploração de recursos cinegéticos e líticos, percorrendo para tal
vastas áreas, até às primeiras comunidades pastoris e
metalúrgicas da Pré-História recente já perfeitamente
sedentarizadas, passando pelas sociedades sidéricas da
proto-história, até aos alvores da Idade Moderna, assistimos
a uma rara e contínua intervenção gráfica nestas paisagensciclo artístico conhecido.
Classifi cado como Património da Humanidade
desde 1998, o Vale do Côa é, pois, até ao
momento, a maior galeria de arte rupestre
paleolítica ao ar livre em todo o mundo, facto que
eleva este sítio a lugar cimeiro da arte de tempos
glaciares no Velho Mundo.
Uma arte da luz, que afastada do velho mito da
arte exclusivamente confi nada em cavernas, que
afi nal se revela uma arte pública e disponível para
qualquer que acedesse ao território do Côa.
Notável é, pois, este Côa da Humanidade que há
três décadas, começou a revelar ao mundo a sua
mais antiga manifestação artística. Originais
criações gráfi cas carregadas de signifi cado,
estética e rigor plástico, as gravuras do Côa
pertencem a uma arte das origens e
simultaneamente contemporânea, tão perto e tão
