DEPOIS

DEPOIS

Luísa Pacheco
Museu do Côa

Em DEPOIS, parto de uma inquietação sobre a condição humana, sobre aquilo que permanece e aquilo que se transforma, e sobre a forma como construímos, representamos e interpretamos a realidade.

O que distingue o antes do depois? O que permanece quando aquilo que conhecemos se altera? Interessa-me explorar essa zona de indefinição onde diferentes tempos coexistem e onde a memória deixa de ser apenas vestígio do passado para se tornar matéria ativa na construção de novas possibilidades.

A exposição constrói-se como um mapa de sobrevivência, de dor e de amor, feito de registos de momentos, fragmentos e memórias futuras. Interessa-me a relação proporcional entre a dor e o amor, enquanto forças indissociáveis que se transformam mutuamente. A sobrevivência surge como continuidade dessa transformação, como capacidade de transportar o que permanece para aquilo que ainda desconhecemos.

Através da pintura, escultura, instalação, objetos e superfícies refletoras, construo uma cartografia instável, onde as imagens se fragmentam, multiplicam e deslocam. Os reflexos ultrapassam os limites físicos das obras, sobrepondo tempos, presenças e ausências. O movimento do observador redesenha continuamente este mapa, num processo potencialmente infinito em que cada imagem contém a possibilidade de outra.

Interrogo também a relação entre o ser humano, a natureza e os sistemas contemporâneos de representação. A condição feminina, os mecanismos de poder e controlo, a crise ecológica e a transformação tecnológica da imagem atravessam esta reflexão sobre a proximidade entre a distopia imaginada e a realidade que habitamos.

No Museu do Côa, os registos ancestrais da existência humana encontram-se com estas imagens de um presente em transformação. Entre as marcas do passado e a construção de memórias futuras, interessa-me aquilo que persiste na necessidade humana de representar, preservar e reinventar a experiência.

DEPOIS não procura representar um momento posterior a um acontecimento, mas aquilo que acontece durante a transformação. Um mapa em permanente construção, onde dor, amor, sobrevivência, presença e ausência coexistem, e onde cada fragmento se torna simultaneamente memória do que foi e possibilidade do que ainda poderá ser.

Talvez o depois não seja aquilo que sucede ao antes, mas o movimento eterno através do qual ambos continuam a existir.