Parte do Chão

Parte do Chão

Entre vales e cumes que envolvem o Rio Côa, o tempo faz a paisagem. A sua autoridade impõe-se suscitando a quem por aqui passa a contemplação da sua imponência: tempo distante, mas próximo, transitado por gentes de um passado que é o nosso.

É esta a paisagem que se desdobra, fragmenta-se numa linguagem gráfica que une o trabalho aqui apresentado, entre a apropriação do texto poético a um grafismo próprio e, simultaneamente, partilhado entre os artistas. Este não é um processo necessariamente premeditado ou estruturado, afinal a memória arquiteta pensamentos, imagens, sons, sombras… de formas que desconhecemos. Emerge então uma paisagem de outra natureza: uma paisagem interior.

No trabalho de João Massano as referências a estas paisagens são evidentes, os planos da paisagem fundem-se, diluem-se, invocando no espectador um lugar entre: um espaço real tanto quanto onírico.

Na obra de Maria Luísa Capela a gestualidade marcante do traço habita as suas pinturas rítmicas, móveis, remetendo para os mecanismos primordiais da pintura: uma plasticidade rugosa, bruta, sensível.

Sebastião Castelo Lopes apresenta uma abordagem beckettiana[1] ao tempo, em que a referência aos símbolos se impõe de um modo poético: o osso associado à palavra. O osso surge como significante, carregando em si múltiplos significados na relação lírica e enigmática que estabelece com o texto.

 

Pautado de referências, de apropriações do que está para lá das paredes do Museu, a exposição convida o espectador a refletir sobre essas relações que o desenho protagoniza. O tempo estabelece a sua agência: eterniza as vivências, histórias, sonhos, de quem por aqui passou. Agora passamos nós, noutra partitura dessa mesma composição.