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A RECONSTITUIÇÃO PALEOAMBIENTAL - A INTERDISCIPLINARIDADE


A Arqueologia, enquanto domínio científico, tem por objectivo principal o estudo das populações do passado e das diversificadas adaptações e transformações que, ao longo tempo, ocorreram nos sistemas socioculturais em que se integraram.

A matéria-prima utilizada pela Arqueologia é constituída pelos restos ou vestígios da cultural material produzida pelas sociedades humanas (artefactos e estruturas), mas também pelos vestígios paleoambientais que se encontram representados nos sítios arqueológicos.

Com efeito, os seres humanos inserem-se em sistemas ambientais e climáticos que condicionam e afectam os seus comportamentos, a sua economia, o modo como se organizam, bem como as suas expressões culturais e crenças. Assim, a Arqueologia procura estudar e compreender as comunidades do passado em relação com os ecossistemas em que se encontram inseridas.

O estudo do sistema paleoambiental compreende a análise das variáveis físicas, biológicas e climáticas que interagiram com o Homem, afectando o seu modo de vida e actuando como factor de transformação dos sistemas socioculturais.

A reconstituição dos paleoambientes físicos resulta da convergência de diversos conhecimentos, métodos e técnicas das Geociências que, ao serviço da investigação arqueológica (Geoarqueologia) proporcionam a esta um leque diversificado de conhecimentos e informações, nomeadamente sobre as paisagens do passado, sobre o modo de formação dos sítios arqueológicos e ainda sobre os recursos litológicos explorados pelo Homem.

O estudo das paisagens assume habitualmente um carácter regional, sendo realizado no âmbito da Geologia e da Geomorfologia, que fornecem o quadro físico estrutural (substrato geológico, formas do relevo, rede hidrográfica). Num âmbito mais circunscrito, a Geoarqueologia procura reconstituir os processos dinâmicos de formação e transformação dos depósitos sedimentares que constituem os sítios arqueológicos. A esta escala de análise intervêm a Geomorfologia (condições locais de depósito), a Sedimentologia (processos sedimentares e sua dinâmica), a Estratigrafia (fenómenos e condicionantes de estratificação) e a Pedologia (formação e evolução dos solos e paleossolos).

A Petrografia ao debruçar-se sobre o estudo e caracterização das rochas numa escala regional, permite identificar a natureza e proveniência das matérias-primas líticas exploradas pelo Homem pré-histórico.

A reconstituição dos paleoambientes biológicos constitui o resultado de investigações multidisciplinares, que estudam as suas componentes bióticas, podendo ser agrupadas em dois grandes domínios de pesquisa: a Arqueobotânica e a Arqueozoologia.
 

A Arqueobotânica engloba todas as disciplinas da área da Botânica que podem fornecer à Arqueologia informações sobre as paisagens vegetais e sua manipulação antrópica. Neste âmbito destacam-se as que estudam os microrrestos vegetais, com destaque para os grãos de pólen e os esporos (Palinologia), ou os macrorrestos, como as sementes e frutos (Carpologia) e as próprias madeiras (Antracologia)

Os grãos de pólen e os esporos, presentes em certo tipo de depósitos sedimentares em grande quantidade (turfeiras, meios lacustres, lagunares, cavidades naturais), são estudados pela Palinologia que, através da sua identificação a diferentes níveis (família, género ou mesmo espécie), permite reconstituir os ambientes vegetais numa escala alargada, fornecendo igualmente elementos sobre as mudanças climáticas de âmbito global.

A Carpologia, através do estudo e identificação das sementes e frutos, normalmente carbonizados ou mineralizados, permite obter informações precisas sobre a alimentação vegetal das comunidades e as suas práticas de recolecção, armazenamento, transformação e consumo (Paleoetnobotânica). A identificação das espécies fornece igualmente dados para a reconstituição da paisagem vegetal próxima dos locais ocupados pelo Homem pré-histórico.

O estudo das madeiras realizado pela Antracologia visa reconstituir o ambiente florestal, bem como a exploração selectiva que as comunidades humanas fazem dos recursos lenhosos como combustível ou material de construção de estruturas de habitat. 

A Arqueozoologia, também designada por Zooarqueologia, constitui um domínio disciplinar que estuda os restos osteológicos conservados no registo arqueológico, tendo em vista compreender as relações estabelecidas entre Homem e os animais num determinado contexto físico e cultural.

A identificação das espécies e suas características, a partir dos restos osteológicos, baseia-se na anatomia comparada, na biometria e na biocronologia, mediante a aferição de aspectos de natureza qualitativa e quantitativa, que permitem determinar o sexo e a idade de abate dos animais. Estas informações revestem-se de especial importância para a compreensão dos comportamentos cinegéticos selectivos das comunidades pré-históricas.

Por outro lado e dado que algumas espécies constituem marcadores específicos dos ambientes em que viveram [caso de alguns micromamíferos (roedores e morcegos), certos mamíferos de grande porte, aves de rapina, insectos e peixes], é possível proceder a aproximações de carácter paleoambiental e paleoclimático, quer de âmbito regional, quer mesmo local. 

O estudo e a reconstituição dos climas do passado (Paleoclimatologia) exigem o cruzamento de um conjunto diversificado de conhecimentos produzidos por diferentes disciplinas e processa-se em diferentes escalas de análise. A uma escala global, a construção dos grandes modelos da evolução climática do nosso planeta tem vindo a apoiar-se, fundamentalmente, em dois grandes campos de investigação.

Um deles baseia-se no estudo de amostras (carotagens) recolhidas no fundo dos oceanos, através da análise das associações de microrganismos (foraminíferos) nelas representadas. As conchas calcárias segregadas por estes pequenos seres registam as variações ocorridas na relação entre os isótopos 16 e 18 do oxigénio, as quais exprimem, simultaneamente, as alterações registadas na temperatura e salinidade das águas dos oceanos decorrentes do avanço ou retrocesso das massas glaciares.

O outro utiliza as carotagens realizadas nas calotes glaciares actualmente existentes, visando analisar a composição do ar retido, sob a forma de bolhas, aquando da formação do gelo. O estudo da composição daquele, em particular da dosagem de isótopos de deutério e de oxigénio 18 nele representada, fornece rigorosas informações em relação às oscilações operadas na temperatura da atmosfera terrestre.

Em escalas de âmbito mais limitado a reconstituição climática apoia-se no cruzamento da informação facultada pelos métodos anteriores com aquela proporcionada por outros domínios de investigação que funcionam igualmente como importantes marcadores climáticos, nomeadamente a Palinologia, a Dendrologia (registo climático deduzido das sequências representadas pelo ritmo de crescimento de algumas árvores), a Paleoentomologia (estudo de insectos), a Malacologia (estudo de moluscos), entre outros. 

Para saber mais:
VV.AA. (2003) – Paleoecologia Humana e Arqueociências. Um Programa Multidisciplinar para a Arqueologia sob a Tutela da Cultura (J. E. Mateus e M. Moreno-García (eds.), Trabalhos de Arqueologia, 29, Instituto Português de Arqueologia, Lisboa, 353 p.

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