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TÉCNICAS E TEMÁTICAS


Uma das questões que sempre mereceu a atenção dos investigadores, diz respeito às técnicas e instrumentos que foram usados pelos artistas paleolíticos. Na verdade, não deixa de ser surpreendente a verdadeira panóplia de técnicas que foram usadas na execução das figuras, entre as quais se incluem as aerográficas, abrasões, picotagens ou mesmo modelações.

Frequentemente, as figuras foram feitas recorrendo a mais do que uma técnica, como aconteceu com os bisontes de Lascaux, que se encontram simultaneamente esculpidos e pintados. Na verdade, as obras que parecem esteticamente superiores foram executadas, quase sempre, por combinação de várias técnicas.

Segundo José Luís Sanchidrián (2001), as técnicas representadas na arte paleolítica podem ser divididas em três tipos ou géneros, a saber: as técnicas aditivas, nas quais se incluem o desenho e a pintura; as técnicas subtractivas, representadas pela escultura e pelo relevo; e as técnicas modificativas, nas quais se integra a moldagem.


Técnicas aditivas

Designam-se por técnicas aditivas aquelas que apenas “acrescentam” alguma coisa ao suporte, isto é, que não implicam a remoção de qualquer parte ou conteúdo do mesmo. Integram o desenho e a pintura.

Vejamos agora quais os tipos de traço (desenho), de técnicas (pintura), de pigmentos e de imagens concretizadas com estas técnicas. 

O tipo de traço:

O traço empregue no desenho pode assumir as seguintes modalidades:

Ponteado – conseguido por uma sucessão de pontos de cor, podendo o traço ser
contínuo ou não; pode implicar o uso do dedo, de instrumentos finos ou mesmo técnicas aerográficas.

Contínuo – traço contínuo e regular, muito usado nas representações feitas em gruta ou abrigos.

Modelado e caligráfico – traço contínuo que apresenta variações de espessura, tendo sido muito usado na demarcação dos contornos e volumes dos animais.

A pintura: 

Em relação à pintura, esta técnica de representação pode apresentar as seguintes variantes:

Tamponamento – semelhante ao traço ponteado, caracteriza-se por uma sucessão de pontos ou manchas individualizáveis, que definem a superfície pintada.

Tamponamento homogéneo – quando, pela sua concentração, os pontos ou manchas de cor utilizados para a execução da pintura, deixam de poder ser individualizados, passando a ser percepcionados de forma contínua.

Sopro – quando o pigmento é aplicado através do sopro vindo directamente da boca do executante, ou por intermédio de um tubo (osso) que funciona como um aerógrafo; alguns idiomorfos terão sido executados através deste processo.

Sopro com molde – variante da técnica anterior que pressupõe um elemento intermediário entre o aerógrafo e o suporte, fazendo com que o corante se espalhe apenas nos contornos do elemento usado; um exemplo paradigmático da utilização desta técnica está representado pelas mãos pintadas, tão frequentes na arte parietal.

Os pigmentos e a paleta cromática:

A gama cromática da arte paleolítica é bastante restrita, facto que resulta da natureza das substâncias corantes que foram utilizadas, de origem mineral ou orgânica.

As cores predominantes são o vermelho e o preto, o que levou alguns investigadores a considerar que uma cor representaria o género masculino e a outra o feminino. Outras cores, também usadas, embora em menor percentagem, são o branco e o amarelo. Já as tonalidades são bastante variadas, resultando de factores como a composição original da cor e as condições de preservação.

Os óxidos de ferro, também muitas vezes designados de ocres, propiciam todas as cores supracitadas.

O preto podia ser obtido através dos óxidos de manganésio, carvão mineral, grafite e magnetite. Esta cor poderia ainda ser obtida submetendo um pedaço de madeira, osso ou mesmo excrementos de animais, à acção do calor. O vermelho e o amarelo seria obtido a partir da hematite, da limonite e da goetite. Por sua vez, para obter o branco poderiam usar-se os caulinos e as micas.

O ocre, sobretudo o vermelho, constitui, segundo alguns investigadores, um elemento fundamental na vida das comunidades pré-históricas, registando-se frequentemente a sua presença no registo arqueológico. Sendo importante na produção artística, deveria ter sido igualmente utilizado noutras actividades quotidianas, bem como em contextos de carácter simbólico, designadamente funerário, estando o seu uso comprovado desde o Mustierense.

A preparação dos pigmentos podia fazer-se pela redução dos óxidos por acção do calor, ou pela moagem das matérias-primas, seguida da sua dissolução em água.

A análise dos pigmentos que foram usados na pintura paleolítica é realizada através de exames cristalográficos, mineralógicos, difracção de raios X, entre outros. Quando os pigmentos são de origem vegetal podem identificados através de análises antracológicas de restos de carvões e de outros indícios vegetais, ou ainda graças às imagens obtidas em microscópios electrónicos de varrimento.

Em função do modo como eram aplicados os pigmentos, as pinturas dos artistas paleolíticos poderão ser classificadas como:

Planas – quando a superfície ou suporte apresenta uma coloração e intensidade homogéneas, não se verificando variações de tonalidade.

Modeladas – quando a pintura denota vários graus de intensidade.

Os estudos efectuados sobre as substâncias corantes associadas aos motivos permitiram demonstrar variações regionais na sua utilização. Assim, constatou-se que, em França, mais de dois terços dos sinais estão pintados de vermelho, existindo grutas em que esta é a cor exclusiva das representações. Por sua vez, os trabalhos que permitiram a A. Leroi-Gourhan definir a sequência dos estilos da arte paleolítica, levaram-no também a concluir que, na última fase evolutiva daquela, a cor preta foi predominantemente usada para pintar os animais, enquanto que o vermelho se confinava aos ideomorfos.

As imagens:

Finalmente, a tipificação das imagens realizadas pode ser estabelecida, conforme elas se revelam:

Monocromáticas – quando apresentam apenas uma cor.

Policromáticas – quando apresentam mais que uma cor; hoje em dia esta designação começa a cair em desuso, em detrimento do termo bicromático, uma vez que não se conhecem motivos em que tivessem sido usadas mais que duas cores.

Os estudos até agora realizados no vale do Côa permitem supor que, inicialmente, as representações fossem sobretudo pintadas. Alguns níveis gravettenses, sobretudo na jazida da Cardina/Salto do Boi, deixaram evidências de ocre vermelho e amarelo, que tendem a desaparecer nas jazidas magdalenenses da Quinta da Barca e da Quinta da Barca Sul. Este facto levou a admitir a hipótese de que a pintura teria tido inicialmente grande preponderância na arte do Côa, sendo suplantada pelas gravuras devido à sua reduzida resistência a condições climatéricas adversas.

A pintura aparece também representada nalguns motivos feitos através de incisão filiforme, ou por picotagem, que teriam sido integralmente pintados. Numa das fases mais pujantes da arte do vale do Côa, algumas partes dos animais terão sido pintadas.


Técnicas subtractivas

Sob esta designação incluem-se todas as técnicas que implicam remover ou destruir parte do suporte para a produção das figuras. Correspondem, assim, às diversas formas de gravar, à escultura e ao relevo. Na arte de ar livre do Côa, as diferentes modalidades de gravura foram amplamente exploradas pelos artistas paleolíticos.

Traço digital – apenas sucede quando o suporte é extremamente macio, como acontece no caso da madeira que pode ficar marcada pela passagem dos dedos, o que depende da pressão exercida; o número de dedos usados permite subdividir os traços em monodigitais (um dedo), bidigitais (dois), tridigitais (três) e assim sucessivamente; a sua inclusão nas técnicas subtractivas não é pacífica, uma vez que não se verifica realmente uma verdadeira destruição do suporte.

Incisões em U e V – estes tipos de  
incisões correspondem às formas das secções resultantes da gravação efectuada sobre suportes duros, como o xisto, normalmente utilizando instrumentos líticos, designadamente os buris de sílex.

Incisão filiforme – técnica que utiliza um instrumento resistente, afiado ou pontiagudo, normalmente um buril, que sulca o suporte, originando uma linha finíssima; esta técnica foi largamente usada no vale do Côa, estando representada na grande maioria das gravuras conhecidas; foi usada para definir o contorno das figuras, mas também para delinear os animais cujo interior foi preenchido por múltiplos traços que conformam uma superfície estriada.

Picotagem – é obtida através da percussão directa ou indirecta sobre um suporte, criando uma linha de pontos que define o contorno das figuras; esta técnica é a segunda mais frequente na arte do vale do Côa.

Abrasão – após a realização de uma figura por picotagem, incisão ou outra técnica, recorre-se à técnica abrasiva para salientar os motivos, os traços, ou mesmo para regularizar a superfície rochosa; esta técnica consiste no aprofundamento das linhas através de um movimento de vaivém, usando um pico de pedra, o que permite criar uma linha regular em forma de V ou de U.

Raspagem – técnica que produz um desgaste da superfície da rocha, normalmente na parte correspondente ao corpo das figuras, possivelmente através da utilização de um seixo, fazendo com que os motivos desenhados sobressaiam e se tornem visíveis pela diferença cromática que se estabelece entre a superfície original do suporte e a que foi alvo de raspagem.

As gravuras do vale do Côa testemunham a utilização de várias técnicas em diferentes momentos de execução. De facto, são numerosos os exemplos em que a incisão filiforme foi usada para esboçar o contorno do animal, definindo um primeiro esboço, sobre o qual incidiu, posteriormente, a picotagem e, finalmente, a abrasão que realçou as linhas. Todavia, a aplicação desta última técnica nem sempre se estendeu a todo o corpo, sendo mais frequente nos quartos dianteiros e, especialmente, na cabeça.

Os percutores utilizados na execução das gravuras do vale do Côa seriam essencialmente picos de quartzito, obtidos a partir de seixos abundantes na região. Já as incisões filiformes terão sido executadas com buris de quartzo ou de sílex.

Os conjuntos escultóricos da arte paleolítica foram obtidos com técnicas subtractivas, podendo, contudo, distinguir-se diferentes categorias.

Baixo-relevo – quando o relevo é muito pouco saliente, tendo a parte que sobressai uma espessura inferior a metade do motivo figurado.

Semi-relevo – qu
ando a espessura da parte saliente é sensivelmente a mesma de metade do motivo figurado


Alto-relevo – quando a espessura da parte em relevo é superior a metade do motivo figurado.

Escultura – quando a figura se destaca totalmente do bloco em que foi esculpido, sendo a sua espessura superior a três quartos da parte esculpida.


Técnicas de modificação

A arte paleolítica inclui figuras que foram objecto de moldagem, técnica que pode ser integrada neste agrupamento.

Na prática, a moldagem constitui uma espécie de antecedente da prática da olaria e do trabalho do barro. Não diferindo muito da escultura, a moldagem diferencia-se daquela apenas no que respeita à matéria-prima que é trabalhada, que neste caso é plástica, como acontece com a argila. Um dos melhores exemplos de figuras paleolíticas moldadas está representado pelos bisontes da gruta de Tuc-d’ Audubert, em França.


Para saber mais:
SANCHIDRIÁN J. L. (2001) - Manual de arte prehistórico, Barcelona, Editorial Ariel, 549p.
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