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O CONTEXTO CULTURAL DO PALEOLÍTICO - PERIODIZAÇÃO


O percurso da Humanidade ao longo dos chamados tempos pré-históricos traduziu-se por um complexo trajecto evolutivo, que encontrou a sua expressão, quer no quadro da sua própria evolução biológica, quer ao nível das suas várias dimensões ou manifestações comportamentais, desde aquelas que suportaram as suas mais básicas necessidades de sobrevivência (organização social, economia, tecnologia), até às que representaram o seu sistema de crenças.

O conjunto de interacções entre o modo de organização social das comunidades, as formas de subsistência relacionadas com as estratégias de ocupação do espaço e as diferentes tecnologias de exploração dos seus recursos, e ainda as expressões simbólicas do seu comportamento, pode ser compreendido, num sentido amplo, como um sistema sociocultural.

Os ensaios de reconstituição deste sistema, quando aplicado às comunidades pré-históricas só podem ser realizados a partir do cruzamento de um conjunto diversificado de evidências materiais, que sobreviveram ao longo passar do tempo, e de uma ampla gama de estudos, métodos e teorias desenvolvidos no âmbito de várias disciplinas ou domínios científicos (Arqueologia, Paleoantropologia, Geoarqueologia, Arqueobotânica, Arqueozoologia, Paleoclimatologia).


Periodização

O estudo dos tempos pré-históricos, iniciado no século XIX, criou uma periodização baseada, fundamentalmente, em critérios de índole tecnológica, cuja terminologia ainda hoje, por tradição, se utiliza.

A primeira etapa da história da Humanidade, balizada entre 2.5 milhões de anos (MA) e 12.000 anos antes do presente (BP – Before Present), foi apelidada de Paleolítico (Idade da Pedra Antiga ou Pedra Lascada), por oposição ao período que então se admitia como sucedendo-lhe, o Neolítico (Idade da Pedra Nova ou Idade da Pedra Polida). Posteriormente, o Paleolítico viria a ser subdivido em três etapas: o Paleolítico Inferior, o Paleolítico Médio e o Paleolítico Superior.

O Paleolítico Inferior (2.5 MA – 200.000 anos antes do presente) corresponde, à escala global, à etapa mais longa de desenvolvimento das comunidades paleolíticas. Em termos populacionais nele sobreviveram os derradeiros representantes dos géneros Australopithecus e Paranthropus, emergindo também os primeiros representantes do género Homo, designadamente o Homo habilis, o Homo rudolphensis e o Homo erectus l.s.(lato sensu) Este último será o responsável pela primeira diáspora do género humano, abandonando as savanas africanas (Homo ergaster) e colonizando a Ásia [Homo erectus s.s.(stricto sensu)] e a Europa (Homo antecessor).

Durante este longo período surgiram os primeiros instrumentos feitos em pedra, obtidos a partir do talhe (lascamento e afeiçoamento) de seixos (Modo de Produção 1). A partir de 1.4 MA verificam-se importantes desenvolvimentos tecnológicos. Ao nível do instrumental lítico verifica-se o aparecimento de objectos produzidos através de um talhe bifacial (biface), bem como o início de uma progressiva diversificação dos utensílios produzidos a partir de lascas (Modo de Produção 2).

Outras importantes inovações deste período, ainda que ocorridas mais tardiamente, estão representadas pela domesticação do fogo, pelo aparecimento das primeiras evidências concretas do fabrico de instrumentos de madeira e pela organização de espaços de habitat melhor estruturados.

O Paleolítico Médio (200.000 – 40.000 anos BP) corresponde a um período no qual se registam importantes inovações no âmbito populacional, tecnológico e cultural. Fruto de um processo de isolamento geográfico e genético, as populações que anteriormente haviam colonizado o continente europeu, conhecem um percurso evolutivo particular, que conduziu ao aparecimento do Homem de Neandertal (Homo neanderthalensis). Esta espécie irá também povoar, ainda que com um carácter mais circunscrito no tempo, algumas regiões da Ásia Central e, sobretudo, do Próximo Oriente, onde coexistirá já com os primeiros representantes do Homem anatomicamente moderno (Homo sapiens).

Neste período regista-se uma evolução e crescente diversificação dos instrumentos fabricados a partir lascas, corporizando uma tendência que já se vinha a afirmar no final do período anterior. Fruto desta orientação observa-se o desenvolvimento de métodos mais evoluídos de produção de daqueles suportes (lascas), agora morfologicamente pré-determinados (método Levallois), através de uma preparação particular do núcleo (Modo de Produção 3). Também no habitat se observa uma crescente complexificação na construção e organização do espaço.

As comunidades do Paleolítico Médio foram as primeiras, das quais temos evidências concretas, a desenvolver comportamentos que transcendem a mera satisfação das mais básicas necessidades de sobrevivência. Entre eles destaque-se o enterramento dos seus mortos, a colecta de objectos sem utilidade evidente (conchas, fósseis), ou mesmo o fabrico do que parecem ser os primeiros instrumentos musicais.

O Paleolítico Superior (40.000 – 12.000 anos BP) constitui o derradeiro e mais curto período do Paleolítico, que afirma o domínio do Homem anatomicamente moderno (Homo sapiens), sendo caracterizado por um conjunto marcante de avanços no plano sociocultural, bem como pela colonização do Novo Mundo.

Graças às inovações operadas no campo das técnicas de trabalho da pedra e ao desenvolvimento de métodos mais eficazes de produção de suportes alongados estandardizados (lâminas e lamelas), as utensilagens fabricadas a partir deles conhecem uma diversificação e uma especialização nunca antes alcançada (Modo de Produção 4). Em paralelo, assistimos também ao aparecimento de técnicas dirigidas especificamente para a manipulação de outras matérias-primas duras de origem animal, nomeadamente o osso, o chifre e o marfim (antes manipuladas e transformadas como que de pedra se tratassem), que, igualmente, irão originar o surgimento de toda uma nova gama de instrumentos até agora ausentes do quotidiano do homem pré-histórico (pontas de dardo, arpões, agulhas, etc.).

As estratégias de ocupação e exploração dos territórios organizam-se e complexificam-se, a mobilidade das comunidades conhece, nalgumas circunstâncias, uma acentuada sazonalidade, da qual decorre que os respectivos habitats assumam, por vezes, um carácter semi-permanente.

Os comportamentos simbólicos tornam-se cada vez mais evidentes, designadamente no âmbito das práticas funerárias e, particularmente, no das manifestações artísticas, que surgem no continente europeu há cerca de 35.000 anos.

Para saber mais:

GAMBLE, C. (2001) - Las sociedades paleolíticas de europa, Editorial Ariel, Barcelona, 527 p.

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