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LinguagemImprimirDicionário critico

Sentido

José Augusto Mourão

O conceito de sentido em semiótica é indefinível. Porque o sentido aparece sempre indissoluvelmente associado à significação e à direcção, por isso mesmo, a tarefa da semiótica contribui para enriquecer o grau efectivo de inteligibilidade do mundo que nos rodeia ou, pelo menos, para reorientar a maneira de o interrogar: "porque têm as coisas um sentido?" A ideia de construção do sentido é nuclear à teoria semiótica. O sentido existe somente como resultado de uma construção efectuada pelos sujeitos "em situação". Todo o sentido é efeito duma aplicação.

Palavras chave: código, signo, sintomas, sinais, simbólico, linguagem

Como é que um signo adquire sentido? De onde procede o sentido? Qual a pertinência da distinção: significação vs sentido? O sentido é um fenómeno contextual? Pode falar-se do sentido como significação deformada pelo contexto? Como interpretação?

São numerosas as teorias do sentido. A maior parte destas teorias partem do axioma da convencionalidade. Como se houvesse um acordo prévio a qualquer comunicação e se impusesse a existência de um
código de maneira imperativa aos diferentes parceiros da troca. Fica na sombra aquilo que se passa antes que a convenção se faça. A questão que permanece é esta: como é que o sentido emerge da experiência? Há na filosofia ocidental duas respostas para este problema: respostas de tipo idealista (são os conceitos que estão em nós que fazem existir as coisas), respostas de tipo empirista (é a existência das coisas que suscita em nós a emergência dos conceitos). Há uma terceira resposta a que Jean-Marie Klinkenberg chama interaccionista. Esta resposta diz que o sentido provém de uma interacção entre os estímulos e os modelos, o que supõe um vai-e-vem do mundo ao sujeito semiótico e deste ao mundo.

Exemplo em que os estímulos são vistos à luz do modelo de que dispomos: vejo um ser e coloco-o na categoria do "vivo" que elaborei ou que alguém elaborou por mim ou coloco-o na categoria "animal" ou, ainda, na categoria "cão". No outro movimento, é o modelo que é modificado pelos dados que fornecem a percepção e a observação (eu acredito que tudo o que é animal e vive na água é um "peixe"; mas novas observações me dizem que esse "peixe" - a baleia, ou o golfinho - apresenta características que o aproximam de outros animais: logo, o que me obriga a reorganizar a categoria "peixe", mas também a categoria em que integro a baleia).


A originalidade deste modelo está no acento sobre a corporeidade do
signo: o nosso corpo é uma estrutura física, sujeita às leis que estuda a biologia, mas é também uma estrutura vivida que tem uma existência fenomenológica[1]. Há outras maneiras de responder a esta questão, ligando-a, quer às concepções intencionalistas do espírito, à questão do holismo, às instituições do sentido (Decrosse, 1993), quer a uma antropologia social do sentido, através das teorias da comunicação, das diversas semióticas e pragmáticas, quer ainda à epistemologia das ciências (Sallatin, 1996). Para Pierre Jacob, um realista da intencionalidade, monista materialista, a questão do sentido resume-se neste pequeno trecho: "Pensar é representar. Ora, uma representação é uma entidade mental e as entidades mentais são entidades neurológicas. Um estado cerebral pode portanto ter uma propriedade não apenas física, química e biológica, mas também semântica" (Jacob, 1997).

Chamamos sentido à relacionação de algo com outra coisa, na medida em que esta outra coisa dá conta da primeira. Assim, a raça explicaria o homem, a história tal gesto, ou o Mal, o povo, o indivíduo, etc. A lógica do sentido é uma lógica das relações que funcionam segundo princípios universais (princípios de identidade, de contradição, do terceiro-excluído). O sentido exalta a generalidade. Consiste sempre numa percepção ou numa leitura de um geral. O sentido está submetido à objectividade da regra e todo o sentido é efeito duma aplicação
[2]. Para Pelc, o termo sentido é utilizado semioticamente quando ligado a qualquer tipo de signo, não só palavras, proposições, textos, mas também sintomas, sinais, símbolos, pinturas representativas ou esculturas.

Por outro lado, o sentido está também ligado a não signos, tais como, existência,
sacrifício, vida, ou história. Por isso, este autor distingue três tipos de sentido não semiótico: 1) conceitos finitísticos, que compreendem os conceitos intencionais, teleológicos e funcionais do sentido, 2) conceitos explicativos, que incluem conceitos motivacionais, causais e genéticos e 3) conceitos axiológicos, que são avaliativos[3]. Na tipologia dos sentidos implícitos constam o pressuposto, o subentendido e o sentido retórico. Os sentidos implícitos não são autónomos, pois resultam de ligações pragmáticas estabelecidas entre várias significações, em que pelo menos uma é considerada explícita, e que são o produto de um cálculo inferencial.

Quem trabalha no campo das ciências sociais (pense-se na história, na sociologia, no direito, na ciência política, nas disciplinas da comunicação) é levado inevitavelmente a fazer falar textos, objectos, factos, a interpretar documentos, monumentos ou comportamentos, em suma, a construir ou reconstruir a significação a partir de acções ou de obras que superam os respectivos domínios de investigação. O trabalho do sociólogo, do jurista, do historiador, etc., passa pela problematização, pela análise ou manipulação daquilo que constitui o objecto teórico próprio da semiótica.

Porque o sentido aparece sempre indissoluvelmente associado à significação e à direcção, por isso mesmo, a tarefa da semiótica contribui para enriquecer o grau efectivo de inteligibilidade do mundo que nos rodeia ou, pelo menos, para reorientar a maneira de o interrogar: "porque têm as coisas um sentido?" O conceito de sentido em semiótica é indefinível. No Dictionnaire de Greimas e Courtés o sentido pode ser considerado quer como aquilo que permite as operações de paráfrase ou de transcodificação, quer como aquilo que funda a actividade humana enquanto intencionalidade. Antes da sua manifestação sob forma de significação articulada, nada poderá ser dito do sentido, a menos que se façam intervir pressupostos metafísicos
[4].

L. Hjelmslev propõe uma definição operatória do sentido, identificando-o ao "material" primeiro ou ao "suporte" em que toda a semiótica como forma se manifesta. Sentido é aqui sinónimo de "matéria". Hjelmslev afinou a teoria de Saussure insistindo no facto de que os dois planos reunidos numa função semiótica eram, antes de mais, substâncias afectivas ou conceptuais, biológicas ou físicas que corresponderiam às "imagens acústicas" e às "imagens conceptuais" de Saussure. A sua reunião converte-as em formas: forma da expressão e forma do conteúdo. J. Fontanille avança a hipótese segundo a qual o processo de formação dos valores corresponde exactamente à passagem da substância à forma: a substância é sensível, a forma é inteligível: "A substância é o lugar das tensões intencionais, dos afectos e das variações de extensão e de quantidade; a forma é o lugar dos sistemas de valores e das posições interdefinidas" (Fontanille, 1988: 39).

J. Courtés dá o exemplo do contínuo material que é uma "árvore" mesmo se só evocada pelos termos "raízes", "tronco", "ramos", etc. Representá-la metonimicamente pressupõe a escolha de um ponto de vista particular que não tem em conta, por exemplo, a circulação contínua da seiva de uma extremidade a outra da árvore (Courtés, 1995: 27). Na semiótica moderna, é a forma duma
linguagem que organiza o contínuo da experiência através das categorias da sua semântica, da sua sintaxe e da sua morfologia; não há, portanto, forma que não seja manifestada por uma substância e, por seu turno, nenhuma substância que possa aparecer sem ser "enformada".

A substância é a trama carnal e pulsátil da nossa existência. Sem a forma, a coloração afectiva da experiência ficaria absolutamente inexprimível. Na hermenêutica alemã das Luzes, faz-se uma distinção entre Sinn (significação) e Bedeutung (sentido). A significação define-se como uma forma estável, independente ou pouco dependente dos contextos, enquanto o sentido varia conforme os contextos e não é definido relativamente a um signo isolado. A tese de Frege, de que a significação determina a denotação, testemunha disso: "é natural associar a um signo (...), para lá do que se poderia chamar a significação do signo (Sinn) em que é contido o modo de doação do objecto" (Brandt, 1993: 134). A significação é, para o primeiro, mediatizada por uma estrutura semiótica, não só no sentido em que esta é uma ponte entre duas estruturas prévias, subjectiva e objectiva, mas, sobretudo, no sentido em que é condição de possibilidade de toda a significação (Cassirer, 1975, vol. 3, p. 86).

"O sentido duma expressão é o seu uso" constitui, desde Wittgenstein, um leitmotiv da filosofia da linguagem que foi diversamente interpretado, porque se define "uso" tanto por recenseamento distribucionalista das ocorrências e dos seus contextos, quanto pelas condições em que uma expressão se insere nos esquemas comunicativos. F. Rastier coloca a questão do sentido e da significação no interior de duas problemáticas: a problemática lógico-gramatical e a problemática retórica/hermenêutica que preside à interpretação das suas ocorrências. O sentido não é dado por uma codificação prévia que associaria estritamente um significante e um significado ou uma classe de significados: é produzido em percursos que discretizam a unem significados entre si, passando por significantes (Rastier, 1996)

O sentido e a significação não pré-existem ao nosso estar no mundo e à nossa acção. Contra a tentação da ontologia da significação, a semiótica situa o sentido, não a montante, mas a jusante das nossas interacções com o mundo, os outros e nós mesmos. A coerência, a inteligibilidade dos discursos, está no termo de uma actividade enunciativa ordenada de que a estrutura discursiva é o simulacro, não estando de modo algum colocadas na dependência de uma estrutura de significação prévia à manifestação. Se é verdade que "a linguística sofre gravemente de nominalismo metodológico", no dizer de Per A. Brandt, "o sentido, esse indefinível da linguística, pode perfeitamente orientar a meta-estabilidade de uma ciência que visa a competência humana de simbolização (verbal, gestual, figurativa, mesmo mental) (Brandt, 2001: 3).

Greimas previa esta tensão entre sentido e não sentido logo nas primeiras páginas de Du sens: "É extremamente difícil falar do sentido e dizer sobre ele algo de sensato. Para o fazer convenientemente, o único meio seria construir uma linguagem que não significa ser nada: marcaríamos assim uma distância objectivante que permitiria sustentar discursos desprovidos de sentido sobre discursos sensatos". (Greimas, 1970: 7).

Podemos perguntar-nos que perdas envolve uma semiótica que descura a relação do léxico com a coisa e com o querer-dizer do emissor; que separa a noção de "sentido", como construção conceptual a partir de um contexto, e a de "significação", suspensa enquanto relação com a coisa. O modelo do signo que comporta apenas dois termos condenou o pensamento sobre o sentido ao binarismo: duas faces de uma mesma folha. Ao mesmo tempo eliminou-se uma questão fundamental: a da construção de um "real".

A crise da noção de signo exprime-se, em França, e no plano da reflexão filosófica, nos anos setenta. Parece hoje que tal reparação de danos apenas se pode fazer fora da herança saussuriana. Peirce fundou a semiótica marcando-lhe o eixo teórico fundamental: o das relações entre a produção de sentido, a construção do real e o funcionamento da sociedade. O modelo ternário de Peirce adequa-se melhor para pensar a questão do sentido. Aqui o sujeito reencontra ao mesmo tempo o seu mundo e o seu corpo. E o sentido, a sua natureza social. A teoria de Peirce, analítica, inferencial, aplica-se, não apenas àquilo que faz sentido, mas também a tudo o que "perturba o espírito".

Toda a interpretação abdutiva toma como ponto de partida um enigma. É esta teoria que permite distinguir em qualquer interpretável uma primeira dimensão -"corpuscular", por oposição a uma outra, de natureza "ondulatória" (Y. Almeida, 1994). Podemos chamar "significação", seguindo a sugestão de I. Almeida, à relação semiótica de tipo corpuscular e "sentido", à relação semiótica de tipo ondulatório". A descrição da significação supõe sempre um enigma e é de natureza inferencial, enquanto a descrição do sentido pode ser simplesmente diagramática. Em conclusão: "se o sentido não existe para se 'pegar' (como seria um tesouro quando se cava a superfície) é porque ele, em todos os casos, deve ser construído". Analisar semioticamente os textos (por exemplo, políticos), as imagens (por exemplo, publicitárias) ou as práticas colectivas (a dinâmica interna de difusão de uma moda, o desenrolar de uma campanha eleitoral, a formação de um ritual, etc.), não é "descobrir" ou "revelar" neles o sentido, porque esse sentido não é nunca inteiramente dado previamente, nem terminado de uma vez por todas. O sentido existe somente como resultado de uma construção efectuada pelos sujeitos "em situação". É essa construção do sentido e dos sujeitos que constitui o objecto da sociossemiótica, por exemplo.



[1] Klinkenberg,Jean-Marie,  Précis de sémiotique générale, Points, De Boeck Université, 1996.
[2] Nancy,Jean Luc,  Le sens du monde, Paris, galilée, 1993, p. 109.
[3] Pelc,J. "Semiotic and nonsemiotic concepts of meaning", American Journal of Semiotics 1. 4, 1982, p. 1-2.
[4] Greimas,A. J., Courtés, J.,  Sémiotique. Dictionnaire raisonné de la théorie du langage, Paris, Hachette Université, 1979, p. 348.

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