Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

LinguagemImprimirDicionário critico

Realidade

Tito Cardoso e Cunha

realidade é uma daquelas noções que só pela negativa se pode definir, dizendo aquilo que ela não é. As coisas povoam o real mas não o reduzem em totalidade ao seu modo de ser.

Palavras chave: imaginário, sonosfera, verosímil

As coisas estão no real. Nada há mais real do que as coisas. As coisas não são irreais.
Ser realista é acreditar nas coisas e no poder dos factos que as organizam. O real é um estado de coisas.
Estas são algumas das convicções que quotidianamente alimentamos sobre o que seja a realidade. Fundamentalmente, a realidade é um daquelas noções que se definem melhor pela negativa, isto é dizendo o que elas não são ou aquilo a que o conceito se opõe.
Assim, é real aquilo que efectivamente existe e está em nossa posse, em oposição ao que não possuímos. É isso mesmo que o ditado popular exprime ao enunciar-se “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.” Quer a expressão dizer que o real é preferível àquilo que apenas desejamos ou ambicionamos sem o ter. Em termos retóricos, C. Perelman, no seu Tratado da Argumentação, invocaria esta expressão como exemplo de uma premissa da argumentação enquanto lugar do preferível exprimindo um valor hierarquizável.

O senso comum estabelece portanto uma hierarquia na qual o real existente em termos de posse é preferível ao que se despossui e portanto não existe, é irreal. Apenas se deseja. Os dois pássaros que continuam o seu voo escapam ao nosso real.
Mas não é apenas ao que se não possui que o real se opõe e dele se distingue. É real aquilo que não é apenas imaginado ou
imaginário, sonhado no sentido de desejado sem por isso existir, o que é fictício.
Esta última categoria, a da ficção, é talvez a que mais claramente se opõe ao real. A ficção é em princípio fruto da imaginação. O artista, escritor ou outro, cria as suas obras de ficção usando a capacidade de imaginar o que não existe, aquilo que não é real. E no entanto, as mais das vezes, mesmo em casos como o surrealismo, é a o real que a criação artística se refere.

Um quadro, por exemplo, de Magritte como aquele que se intitula “O império das luzes” parece-nos muito imediatamente representar um real que nos é perfeitamente reconhecível. Uma casa, árvores, candeeiros de iluminação pública, o céu por cima. Tudo coisas que nos são familiares do quotidiano. E no entanto, olhando com um pouco mais de atenção, toda essa familiaridade reconhecível desaparece ao reparamos que algo não bate certo naquela paisagem enquanto representação de um real tranquilo e silencioso. Um sentimento de inquietante estranheza se intensifica à sua contemplação. Descobrimos que o céu luminoso e diurno que ocupa a parte superior do quadro não coincide com a paisagem nocturna que a parte de baixo representa. Essa falta de coincidência com o real é por onde a imaginação do artista constrói um sentimento que faz o espectador perder as suas referências e experimentar um inquietação difusa.

Real e imaginário estão pois, em termos artísticos, por vezes intimamente relacionados. Embora haja, como se sabe, correntes artísticas que se reclamam do real como o que a arte quer representar. O realismo, o neo-realismo, o realismo socialista, todos tinham por ambição atribuir à expressão artística, sob todas as suas formas, a função de representar o real ou pelo menos aquilo que se entendia que ele deveria ser como representação.
O real é feito de coisas, já se disse, isto é factos reais. Mas o que seja um facto, uma coisa real, pode variar de cultura para cultura. Para um antropólogo formado no ocidente o trovão é realmente um fenómeno meteorológico enquanto que para o indígena junto de quem ele está esse facto é antes a manifestação de uma entidade transcendente. É sobretudo na modernidade ocidental, através do processo a que Max Weber chamou de desencantamento do mundo e em que a racionalidade científica se desenvolveu que a distinção entre a noção de facto real e o seu oposto mais rigorosamente se definiu.

Mas o que aparece claro e distinto no raciocínio científico não o é necessariamente da mesma maneira ao nível da psique humana. Assim, por exemplo, Freud mostrou como a alma humana se partilha entre forças muito distintas a que ele chamou princípio de realidade e princípio de prazer. Normalmente o princípio de realidade opõe-se ao princípio de prazer e vice-versa sendo que este último, dado o seu potencial autodestrutivo, tende a ser limitado pelo princípio de realidade. Todas as dependências lutam contra o princípio de realidade para cumprir o seu princípio de prazer. O “viciado” no jogo, que é por onde o seu princípio de prazer se cumpre, pode, à face da lei, auto impor-se o princípio de realidade solicitando a sua própria interdição de entrar num casino. Muito exemplarmente é aqui a
Lei que restringe a capacidade destrutiva do princípio de prazer levado ao seu extremo, isto é à fuga do real.

Não quer isto dizer que o princípio de realidade não possa também ser ele próprio destruidor do equilíbrio mental e afectivo. Uma adesão total ao real imposto, a renúncia absoluta a qualquer expressão do prazer podem também aniquilar uma personalidade.
Se o real é o normal, uma patologia da normalidade que se venha a desenvolver pode levar o indivíduo ao desequilíbrio existencial. Sem uma função para o imaginário na personalidade, o próprio real se vai reduzindo a um esquematismo empobrecedor e em última instância destrutivo.

Ninguém vive exclusivamente no e do real. O imaginário é também uma dimensão essencial à sobrevivência. A realidade é o que se impõe a cada um, quer se queira ou não. O imaginário, cada um o cria ou o recebe de uma cultura ou de uma tradição.
Quando um psicanalista como o francês Jacques Lacan, propõe uma tópica da psique humana em que três instâncias são distintas – real, simbólico e imaginário – de algum modo é disso que nos fala. Dessa indivisibilidade do espírito humano que só encontra o seu equilíbrio na harmonização de todos esses níveis. O simbólico que a sociedade, a cultura e a tradição impõem; o imaginário inventivo da ficção e o real a que, em última instância, sempre aspiramos e com o qual de qualquer modo se tem sempre de contar.
Desse modo o célebre slogan dos anos 60 “Sejam realistas, peçam o impossível!” exprime um paradoxo no cerne da existência humana. O real a que se aspira é também aquilo a que se não retorna, daí a sua impossibilidade.

A realidade, se ela é feita de coisas, pode ser também algo de muito pobre. Uma coisa é aquilo que não é vivo ou que é inanimado. Nada do que é vivo se percebe como uma coisa. As pessoas não são coisas. Os animais também não. Quando porventura existe a tentativa de reduzir, mesmo se apenas conceptualmente, um ser animado a uma coisa, esse processo de coisificação tem um nome, chama-se reificação, palavra cujas conotações são sempre negativas.

O real é também aquilo que se opõe às palavras. As palavras não são coisas e como tal são retoricamente depreciadas, por paradoxal que isso possa parecer. Nos lugares comuns do discurso a realidade das coisas sobrepõe-se à fragilidade das palavras e a retórica é apenas pensada como um discurso e como tal depreciada perante o domínio concreto do real que é onde a acção tem lugar. E no entanto, como no-lo mostrou Austin, também as palavras servem para fazer coisas.

Mas as palavras servem igualmente para dar o nome às coisas e o senso comum costuma apreciar a atitude que consiste em “chamar as coisas pelo seu nome” o que parece ser uma garantia de
verdade no discurso. Que seria da realidade sem as palavras? Porventura toda a busca humana do real, como a literatura bem o demonstra, consiste em procurar, no dizer de uma romancista francesa, “palavras para o dizer.”

De uma maneira ou de outra, retórica ou literariamente, o real constitui-se em grande parte pelo que dele se possa dizer. Resta saber se tudo aquilo que se não pode dizer fica, por isso mesmo e necessariamente, fora da realidade existente. Nesse caso o silêncio, como a
música, são completamente irreais, não porque deles se não possa falar mas porque todas as palavras que se lhes acrescentem tendem a tornar-se supérfluas.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved