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LinguagemImprimirDicionário critico

Interpretante

José Augusto Mourão

Todo o interpretante é um signo, assim como todo o signo é um interpretante. Tanto o objecto como o interpretante são partes constitutivas do signo (ou processo de representação, de modo que este só pode ser definido na relação com o objecto e o interpretante.

Palavras chave: signo, texto, linguagem

A teoria do interpretante é a parte mais extensa da teoria peirceana dos signos e a mais inovadora. O seu pragmatismo e a sua teoria do método (formal, retórico, metodêutico) encaixam-se dentro da concepção do interpretante e muitos outros aspectos da filosofia de Peirce, incluindo a filosofia da ciência, estão com ela relacionados de modo muito próximo[1]. Foi em 1866 que Peirce utilizou o termo " interpretante" pela primeira vez (W 1: 464-5). No estudo "Sobre uma nova lista de categorias" (1867) o termo era já utilizado. A divisão dos interpretantes em imediato, dinâmico e final é bastante mais tardia (1904). Que se trata de uma possibilidade de interpretação ainda abstracta, di-lo esta citação: "É uma abstracção consistindo numa possibilidade" (SS, p. 111). "O interpretante Imediato consiste na Qualidade da Impressão que um Signo está apto a produzir, não diz respeito a qualquer reacção de facto" (8.315). É evidente que o interpretante imediato está objectivamente relacionado com os caracteres da primeira categoria fenomenológica (primeiridade). O interpretante dinâmico é o efeito realmente produzido na mente pelo signo (8.343). O interpretante dinâmico é qualquer interpretação que qualquer mente realmente faz do Signo. Esse interpretante deriva do seu carácter de categoria diádica, a categoria da acção. O significado de qualquer Signo sobre alguém consiste no modo como esse alguém reage ao Signo" (8.315). O interpretante dinâmico corresponde àquilo que se pode chamar o significado do signo em concreto. O interpretante final é o efeito que o Signo produziria sobre uma mente em circunstâncias que deveriam permitir que ele extrojectasse o seu efeito pleno (SS, p. 110). "O meu interpretante Final é o resultado interpretativo ao qual todo o intérprete está destinado a chegar se o Signo for suficientemente considerado 8...) o interpretante Final é aquilo para o qual o real tende" (SS, p. 111). Entenda-se o interpretante Final como um limite ideal mas inatingível, para o qual os interpretantes dinâmicos tendem[2].


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Para que algo possa funcionar como signo de algo tem de haver um interpretante do signo. A contribuição de Peirce é determinante no que se refere ao problema da interpretação: a) a relação significante é sempre uma relação de três termos: "Um Signo, ou Representamen, é um Primeiro, que mantém com um Segundo, chamado seu Objecto, uma tal verdadeira relação triádica que é capaz de determinar um Terceiro, chamado seu Interpretante, para que este assuma a mesma relação triádica aos olhos do dito Objecto que a que existe entre o Signo e o Objecto" (2.274). Numa acepção larga, o Interpretante é o sentido do signo; numa acepção mais estreita, a relação paradigmática entre um signo e um outro: o interpretante é, portanto, sempre um signo que terá o seu interpretante, etc.; b) Peirce reconhece a diversidade dos signos e a sua irredutibilidade ao modo de funcionamento do signo linguístico. Podemos falar aqui de cooperação entre três instâncias: o objecto, o signo propriamente dito e o interpretante. Por outras palavras, a coisa representada, a coisa que representa (o representamen) e a mediação que se opera entre signo e objecto. Cruzando diferentes critérios, Peirce chega a distinguir 66 variedades de signos. Há distinções que se tornaram correntes: signo-tipo, signo-occurrência (type e token ou legisign e sinsign) ou ainda: ícone, índice e símbolo.

Todo o interpretante é um signo, assim como todo o signo é um interpretante. Tanto o objecto como o interpretante são partes constitutivas do signo (ou processo de representação), de modo que este só pode ser definido na relação com o objecto e o interpretante. "Um signo dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa um Signo equivalente (...) A esse Signo que ele cria chamo Interpretante do primeiro Signo" (2.228). Não se confunda o interpretante com o intérprete. O interpretante é uma propriedade objectiva que o signo possui em si mesmo, um tipo lógico geral, haja ou não um acto interpretativo a seu respeito. O devir do interpretante é um efeito do signo como tal, não dependente de um acto de interpretação subjectivo. "O interpretante não é outra coisa senão uma outra representação" (1.339). O intérprete é o indivíduo particular comprometido nos processos semióticos; o interlocutor quando há comunicação. Um signo, por definição, não é o objecto, a relação que ele mantém com um objecto eventual exige que necessariamente ele seja interpretado. O interpretante é, pois, o instrumento que o intérprete utiliza na interpretação. Pode ser o sentido que ele atribui a um painel da estrada, as conotações que associa a determinado signo, o reconhecimento dos traços do tipo icónico, a referência a um membro da classe das garrafas de vinho, no caso de um signo ostensivo, em que o comensal mostra a sua garrafa vazia ao copeiro. Se intérpretes diferentes operam interpretações diferentes de um mesmo signo é porque mobilizam interpretantes diferentes. É de facto possível encontrar vários interpretantes para um mesmo signo: é o recurso a interpretantes distintos que faz com que uma partitura musical pode permitir uma leitura silenciosa, uma leitura cantada, uma execução instrumental. O interpretante é, pois, dinâmico. O interpretante é ao mesmo tempo o produto de uma experiência e uma acção. Trata-se sempre de estabelecer ligações entre objectos e signos. Num índice, por exemplo, o interpretante será o relacionamento que se faz entre a percepção visual de uma mancha circular húmida numa mesa e o facto de um copo de vinho ter estado nesta mesa. Mas o interpretante pode ser uma lei geral que se retira por indução (Newton, quando enuncia a lei da gravidade a partir da sua observação da queda das maçãs), a explicação que fornecemos de um fenómeno. Pode ser um gesto ou uma atitude corporal ("Depor armas!"). Numa teoria semiótica que mobiliza a noção de interpretante, a significação dum signo não é um simples reenvio no interior de um sistema fechado, é a acção deste signo sobre o intérprete. Pode dizer-se também que o interpretante é dinâmico porque o processo de interpretação é, em princípio, ilimitado. Para compreender esse facto, basta observar que o interpretante dum signo é sempre descritível como um outro signo. A definição de uma palavra num dicionário é um signo, a de um sinal no código da estrada é um outro signo; a atitude corporal adoptada em resposta a uma ordem é um signo (por exemplo por "submissão"), como uma partitura ou a fórmula de uma lei física. Se o interpretante dum signo é um outro signo, este último tem por seu turno um interpretante, ele mesmo um signo, e por aí fora. Um mesmo objecto pode ser analisado graças a interpretações variadas, dando lugar a interpretações novas ou contraditórias. Ilimitada no seu princípio, a cadeia dos interpretantes é, na prática, frequentemente interrompida. O hábito tem a função de fixar, logo de interromper a cadeia dos interpretantes - um triângulo na borda da estrada não permite interpretações novas ou contraditórias.



[1] Savan,David,  An Introduction to C. S. Peirce's full system of semiotic, Toronto, Victoria College of the University of Toronto, 1976, p. 29.
[2] Santaella,Lúcia ,  A Teoria Geral dos Signos, Thomson Pioneira, 2000, p. 74.

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