Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

LinguagemImprimirDicionário critico

Código

José Augusto Mourão

A palavra código remete para uma operação de substituição, para uma convenção e para uma operação de transformação (transcodificação). Aquilo que designamos por código no singular (o código da língua, o código da estrada...) é um conjunto sistemático de códigos mínimos em número por vezes muito elevado. O código é a associação de dois sistemas de natureza diferente: um sistema significado e um sistema significante. Porém, os códigos só existem sob a forma de modelos. Na sua actualização, variam. A tipologia das culturas oscila em torno da dupla acepção de código como instituição e correlação. Em ambos os casos o código é um modelo do mundo.

Palavras chave: signo, sinal, símbolos,linguagem

Podemos, evidentemente, distinguir entre dois sentidos diferentes de comunicação. A comunicação pode ser entendida no sentido que lhe emprestam os defensores da semiologia da comunicação, ou como a entende a teoria da informação. Os anos 50 vêem nascer The mathematical theory of communication, de Shannon e Weaver (1949), e Fundamentals of language, de Jakobson e Halle (1956). É a partir desta altura que o termo código vai ter a fortuna que se lhe conhece: reformula-se a oposição saussuriana língua-fala em termos de código-mensagem; fala-se de código fonológico, código linguístico, código de parentesco, código estético, código genético, código analógico (contínuo) e código digital (discreto), códigos etnolinguísticos, gestuais, proxémicos, etc.

A noção de código é tão vasta como a noção de
signo: código da língua portuguesa, códigos numéricos utilizados nos telefones, linguagem dos computadores, códigos simbólicos (das flores ou das cores), regulamentos que permitem deduzir uma doença a partir dos seus sintomas, regras das boas maneiras, regras que permitem deduzir o estado social ou a nacionalidade de alguém a partir da maneira como se veste. Há empregos desta noção que nada têm de semiótico: a expressão "código civil". No caso da expressão código postal por exemplo, a palavra "código" remete para uma associação entre signos - sequências de números/ - e uma coisa para que estes signos remetem: "uma estação de correios". A expressão "código da estrada" releva dos dois casos: por um lado, trata-se de um conjunto de regras sociais, mas por outro lado, algumas destas regras estabelecem correspondências entre painéis que se caracterizam por /cores/, formas/ e /motivos/ particulares e "indicações", "ordens", etc.: neste caso, trata-se de código no sentido semiótico do termo.

A tipologia das culturas assenta nos sistemas que lhe fornecem uma consistência própria (Lotman 1969), e cabe-lhe descrever os principais tipos de códigos culturais com base nos quais tomam forma as "línguas" das várias culturas. Esses códigos sociais naturalmente são instituições ou sistemas de valores (como "honra", "glória"). A tipologia das culturas oscila, portanto, em torno da dupla acepção de código como instituição e correlação. Em ambos os casos o código é um modelo do mundo. Lotman distingue, de resto, culturas que chamaríamos hipocodificadas, baseadas em textos que propõem modelos de comportamento, e culturas hipercodificadas, baseadas em manuais ou gramáticas (Lotman e Uspenskij, 1975).

O termo código empregou-se primeiro na teoria da informação em que designa um inventário de
símbolos arbitrariamente escolhidos, acompanhado de um conjunto de regras de composição das "palavras" codificadas, e frequentemente em paralelo com um dicionário da língua natural (cf. o morse). Trata-se, na sua forma simples, de uma linguagem artificial derivada. O hibridismo deste termo vem-lhe da teoria da informação onde designa "um inventário de símbolos escolhidos arbitrariamente, acompanhado de um conjunto de regras de composição" das unidades codificadas, e por outro lado da teoria da comunicação linguística que procurava "explorar a oposição código/mensagem (Jakobson): o que é apenas uma nova formulação da dicotomia saussuriana" (Greimas e Courtés, 1979: 39). O alfabeto pode ser considerado, a esta luz, como um código. Descodificar um sinal é relacioná-lo antes de mais com o sistema e extrair dele as regras que permitem reconstituir uma mensagem. Para que haja código é necessária uma correspondência entre dois sistemas. O sistema é estacionário, identificável com as qualidades que o definem como sistema em que o observador é uma variável exógena (perturbação ao sistema).

O código de que fala o teórico da informação é um sistema monoplanar, enquanto tal, pode ser definido não como um código, mas um sistema, ou seja, um sub-código (cf. Eco 1975). Os sistemas matemático ou musical que Hjelmslev teria chamado simbólicos, desprovidos de conteúdo e portanto monoplanos, escondem uma possibilidade de correlação significante, na base de expectativas e satisfações. Estes jogos de esperas dependem da hipercodificação intertextual de "roteiros" preexistentes (Eco, 1975, 2. 14.13; Eco 1979). A música é um código: todos os elementos de uma composição (alturas, intensidades, timbres, etc.) estão em relação entre eles; mas não significam; e também não possuem a qualidade de secundariedade (aquilo que permite à
linguagem verbal quer falar das próprias palavras que a constituem ou de outros sistemas de signos, quer ainda frases que recusem tanto a denotação como a representação - a mentira, a perífrase -, ou ainda utilizar frases num sentido não previamente conhecido pela comunidade linguística. "Entende-se por código uma convenção que estabelece a modalidade de correlação entre os elementos presentes de um ou mais sistemas assumidos como plano da expressão e os elementos ausentes de um outro sistema (ou de mais sistemas ulteriormente correlacionados com o primeiro) assumidos como plano do conteúdo, estabelecendo também as regras de combinação entre os elementos do sistema expressivo de modo que estejam em condições de corresponder às combinações que se deseja exprimir no plano do conteúdo" (Eco, 1976: 33-34). Eco (1970: 38-40) faz uma classificação em que figuram:

  • códigos perceptivos: condições de percepção suficiente.
  • códigos de reconhecimento (dos objectos)
  • códigos de transmissão (fotográfica, v.g.)
  • códigos tonais: variantes facultativas na harmonia das formas.
  • códigos icónicos: figuras (geométricas, gestalteanas), signos (elementos lexicalizáveis), semas (enunciado icónico: é a imagem do que se percebe)
  • códigos iconográficos: passagem do icónico ao sema culturalizado (ex.: de cavalo à Pégaso).
  • códigos do gosto e da sensibilidade: conotações tiradas dos semas dos códigos precedentes.
  • códigos retóricos: organizados em figuras, em premissas argumentativas e argumentos complexos.
  • códigos estilísticos: dum autor, duma época, dum género.
  • códigos do inconsciente: em relação com as regras operatórias da psicanálise.


Em criptografia, um código é um sistema de regras que permite transcrever uma determinada mensagem (cifrada) mediante uma série de substituições, de modo que, através delas, um destinatário que conheça a regra de substituição seja capaz de obter de novo a mensagem original (clara). Um exemplo típico é o anagrama Roma que se torna Amor ou segreto (segredo, secreto) que se torna etgorse. O chamado alfabeto Morse é também uma cifra, ou código em sentido estrito. A noção de código é de aplicação bastante clara no caso de uma nota de banco ou de uma palavra: há convenções que nos permitem associar um determinado valor à expressão /100 euros/. Este remeter de uma coisa a outra é convencional. De resto, é um valor que varia, consoante nos referimos ao euro, aos francos suíços ou ao dólar. É também em função de um conjunto de convenções reguladas que /dor de barriga/ remete para uma afecção e não para uma operação matemática. Em resumo, o código é associação de dois sistemas de natureza diferente: um sistema significado e um sistema significante. Não há código senão quando dois sistemas são associados. Assim, à oposição de cor /vermelho/ vs /verde/, corresponde no código da estrada a oposição conceptual /passagem proibida" vs "passagem permitida. É evidente que o /vermelho/ não é por natureza oposto ao /verde/: num outro contexto, poderia opor-se ao /branco/, ao /amarelo/ etc.; como podíamos opor o /vermelho carmim/ ao /vermelho vermelhão/, como acontece em filatelia. No código da Dama das camélias, é ao /branco/ que se opõe o /vermelho/, numa correspondência com o sistema "relações proibidas" vs "relações permitidas".

Um código elementar comporta no mínimo quatro unidades. Um exemplo: a bengala de cego, mesmo sendo um dos mais elementares que possamos pensar, é feita de quatro unidades: por um lado o significante /bengala branca/ opõe-se a todo o resto (/bengalas não brancas/ e /ausência de qualquer bengala/), do outro esta oposição de significantes remete para a oposição de significados "cegueira" vs "não-cegueira".

Chama-se transcodificação a transformação que sofre um mesmo código quando passa de um canal a outro. Uma transcodificação permite que um mesmo significado transite através das substâncias da expressão diferentes; por exemplo, para a língua, as substâncias sonora e gráfica. Atribuem-se duas funções a esta operação: optimizar o funcionamento dos canais e aumentar o nível de redundância dos enunciados. É o caso das indicações fornecidas aos barcos na entrada de um canal (os faróis, o semáforos, o código morse) ou dos signos da escrita para serem lidos pela vista que podem, no caso da cegueira, serem objecto de uma transposição táctil - é o Braille. É o caso do automobilista que se pode fazer assinalar recorrendo aos faróis ou à buzina, ou dos dois sinais ao mesmo tempo para se assegurar que a sua mensagem passou.

A operação de códigos naturalizados revela, não a transparência e "naturalidade" da linguagem mas a profundidade do hábito e a "quase-universalidade" dos códigos em uso. São eles que produzem reconhecimentos aparentemente "naturais". Cada cultura tende, com diversos graus de clausura, a impor as suas classificações do mundo político, social e cultural. São elas que constituem a ordem cultural dominante, mesmo que não seja unívoco ou não contestado. Os domínios dos significados "preferentes" estão embebidos e contêm o sistema social como um conjunto de significados, práticas e crenças. Não há grau zero da linguagem. Aquilo a que chamamos "distorções" ou "malentendidos" surge por falta de equivalência entre dois lados da troca comunicativa. Para clarificar um "malentendido" ao nível conotativo, temos de fazer referência, através dos códigos, às ordens da vida social, do poder económico e político.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved