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LinguagemImprimirDicionário critico

Escrita

David Olson

A utilização de marcas visíveis com objectivos de representação e comunicação talvez seja tão antiga quanto a própria humanidade, havendo indícios dessa prática desde há cerca de 50 000 anos. No Paleolítico Superior (o período aproximado que medeia entre há cerca de 30 000 e 10 000 anos) temos provas claras relativas ao início dos desenvolvimentos utilitários incluindo olaria, preparação de alimentos e agricultura doméstica, assim como desenvolvimentos psicológicos manifestados na ornamentação e sepulcro dos mortos. Estes desenvolvimentos são mais ou menos contemporâneos do surgimento dos desenhos figurativos e da utilização de entalhes para contar. A utilização de marcas visíveis com objectivos comunicacionais e estéticos constituiu um primeiro passo na longa evolução das artes plásticas e visuais. Tal foi também o primeiro passo em direcção ao desenvolvimento das formas modernas de escrita. O modo como este desenvolvimento ocorreu é ainda na actualidade um objecto de investigação para arqueólogos, linguistas, historiadores e psicólogos.

Palavras chave: figura, oralidade, legível/visível, número, sinal, texto

Muitas coisas dependem da concepção de escrita que se tem. A maior parte dos académicos contemporâneos advoga que a escrita constitui uma tecnologia para a representação da fala e que os modernos sistemas de escrita representam não só ideias mas também propriedades fundamentais do discurso, nomeadamente, os sons produzidos pela fala, isto é, as propriedades fonológicas da fala. A história da escrita, por consequência, relaciona-se em grande medida com a detecção do desenvolvimento do uso de marcas visíveis para objectivos comunicacionais desde o seu aparecimento até ao ponto em que se tornam inscrições de discurso oral. Com efeito, é esta a perspectiva clássica sobre a escrita, expressa primeiramente por Aristóteles e adoptada nos tempos modernos pelo célebre linguista Ferdinand de Saussure. Aristóteles escreveu no De Interpretatione: “As palavras faladas são símbolos, afecções ou impressões da alma: as palavras escritas são sinais das palavras faladas.”

A invenção de inscrições escritas concebidas com o objectivo de representar propriedades de enunciações faladas é claramente uma conquista tardia, que aparece em primeiro lugar nos sistemas de escrita aptos para expressar todos os fins, autonomamente desenvolvidos na Suméria (actual Iraque), Egipto e China, cerca de 3000 anos antes de Cristo, enquanto as representações escritas utilizadas com objectivos comunicacionais são muito anteriores, como se referiu, datando do período Paleolítico. Traçar uma linha de desenvolvimento destas primeiras inscrições até às modernas parece dar conta de um processo evolutivo directo.

Começando como sinais visuais de ideias, foram depois desenvolvidos sinais para palavras, mais tarde surgem os sinais para sons e, por fim, os sinais dos mínimos constituintes dos sons, isto é, os fonemas representados pelas letras do alfabeto. Jean-Jacques Rousseau no seu Ensaio sobre a Origem da Linguagem (1754-1791) foi um dos primeiros autores a propor que não só os sistemas de escrita progrediram desde sistemas primitivos até aos mais avançados mas também que as sociedades que os empregam poderiam também ser hierarquizadas.

Estes três modos de escrita correspondem quase exactamente a três diferentes estágios, segundo os quais se pode considerar que os homens se agruparam em nações. A recolecção de objectos é própria de povos selvagens, sinais de palavras e proposições são próprios de povos bárbaros e o alfabeto é próprio de povos civilizados.

 

Não é necessário constatar que estas hierarquizações costumam situar a sociedade do seu próprio proponente no seu ponto mais alto.

Os linguistas modernos, a começar por I. J. Gelb, no seu livro A Study of Writing (1963), equacionam o desenvolvimento da escrita como uma única conquista evolutiva que apresenta o alfabeto como seu ponto máximo. Este autor distingue quatro estados na evolução. O primeiro consiste numa escrita por imagens que exprime ideias directamente, o segundo diz respeito aos sistemas de escrita baseados em palavras ou logogramas, em terceiro lugar, temos os sistemas de escrita silábica, baseados em sons, os silabários e, por último, encontramos os sistemas de escrita fonética, ou alfabetos. Os gregos têm sido reconhecidos como os inventores do alfabeto. Tal como Eric Havelock afirma no seu The Literate Revolution in Greece and its Cultural Consequences (1982):

“De um golpe, os gregos apresentaram um quadro de elementos de som linguístico que é não só utilizável de forma económica mas que, pela primeira vez na história do homo sapiens, também é rigorosa e precisa”.

 

A ênfase posta no alfabeto é actualmente entendida como relativamente ilusória na medida em que subavalia a optimidade de outros sistemas de escrita, como o chinês e o japonês que, em grande medida, se baseiam em sinais indicativos de palavras inteiras; subavalia a eficiência da escrita árabe ou hebraica que, tal como os silabários, não possui sinais para as vogais; e subavalia completamente também o sucesso dos sistemas de escrita das antigas Américas. Peter Daniels, no seu artigo sobre Gramatologia, no Cambridge Handbook of Literacy, expressa a opinião da maior parte dos linguistas contemporâneos, criticando a perspectiva evolucionista e adoptando em vez dela uma abordagem funcional à história da escrita, defendendo que os sistemas de escrita em todo o mundo se adaptaram às funções que foram chamados a desempenhar, assim como às propriedades da linguagem falada pelos seus inventores. Assim, há muitas histórias da escrita para serem redigidas e não apenas uma que todas as outras abarcasse. O estudo dos sinais visuais utilizados para fins comunicacionais, incluindo todo o amplo espectro das artes visuais e plásticas, tornou-se um dinâmico objecto de investigação paralelo, mas largamente independente, do estudo da escrita.

 

Das Figuras à Escrita: O Caso da Escrita Suméria

Os sistemas de escrita de grande escala, isto é, sistemas de escrita capazes de expressar qualquer coisa que possa ser oralmente enunciada, desenvolveram-se autonomamente pelo menos em quatro sociedades antigas: na Suméria, região posteriormente designada como Mesopotâmia pelos gregos que corresponde ao moderno Iraque; no Egipto; na China e na América Central. Em cada um destes casos, a elaboração de um sistema de escrita de grande escala ocorreu no contexto de sociedades urbanas complexas, cuja subsistência se baseia no ciclo anual da agricultura e cuja gestão estava a cargo de uma burocracia administrativa complexa. As primeiras versões destes sistemas de escrita desenvolveram-se a par de um conjunto alargado de dispositivos de representação visual. Entalhes para contar e imagens com finalidades estéticas e religiosas foram utilizadas muito antes da invenção de inscrições capazes de representar a linguagem falada. Foram utilizados sinais geométricos para indicar a propriedade na Mesopotâmia, há quatro milénios atrás, que são equivalentes às ainda actuais marcas de gado. Bastões com entalhes foram usados na Antiga China de forma a manter registos de dívidas e outros dados. O mesmo sistema foi também utilizado na Grã-Bretanha, pelo Tesouro Real, até há relativamente pouco tempo. Cordas com nós foram usadas como registos na Antiga China, tendo alcançado um nível extremamente elevado de complexidade no quipu do Peru pré-colonial. Emblemas, selos, tótemes, escudos, armaduras, carimbos, bandeiras e sinais religiosos fizeram parte dos códigos gráficos dos tempos antigos, como aliás ainda hoje sucede.

Alguns dispositivos gráficos pioneiros representavam não só divindades, objectos e relações de propriedade, mas também narrativas. Um exemplo relativamente moderno é a escrita por imagens utilizada pelos povos indígenas da América do Norte, nos séculos XVII e XVIII. Os Obijway serviam-se de uma série de descrições gravadas em rolos feitos de casca de árvore para representar os rituais e crenças da sua cultura, incluindo-se aí uma descrição pictórica da criação do mundo. A confederação iroquesa servia-se de um conjunto de cintos feitos de conchas de forma a simbolizar tratados relativos à propriedade e reivindicação de terras. Tais sistemas gráficos visuais serviam principalmente como auxiliares de memória a pessoas já informadas sobre o seu conteúdo, mais do que como dispositivos comunicacionais para serem lidos por outros, que não estivessem familiarizados com o seu conteúdo. Por conseguinte, estas inscrições não podiam ser lidas no sentido moderno da palavra. Reitere-se que tais sinais e inscrições representam ideias e acontecimentos mas não representam linguagem sobre esses eventos, pelo que não se podem classificar como sistemas de escrita no sentido moderno do termo.

O modo como os sistemas de escrita se desenvolveram a partir de tais dispositivos de notação variam de contexto para contexto, mas o modo como se processou a invenção suméria dos hieróglifos é talvez o mais facilmente compreensível. Uma forma gráfica extremamente importante a partir da qual a maioria dos sistemas de escrita ocidentais evoluíram, e entre eles o sumério, consistiu no sistema de figuras desenvolvido com objectivos contabilísticos na Mesopotâmia, a partir do IX milénio antes de Cristo. Este sistema consistia num conjunto de figuras de diferentes formas e arranjo, utilizadas para manter registos de gado e outros animais, de mercadorias de vários tipos assim como de azeite e cereais. Milhares de figuras destas têm sido descobertas e desenterradas nos locais, hoje desertos, onde se encontravam as antigas cidades de Ur, Lagash, Larsa e Umma.

Cerca do quarto milénio antes de Cristo, mais ou menos contemporâneo do crescimento de cidades dotadas de exigências comerciais e sociais cada vez mais complexas, aumenta também a variedade destas figuras, presumivelmente por causa do crescente número de tipos de materiais que careciam de inventariação, pelo que as figuras deveriam ser concebidas de tal modo que poderiam ser agrupadas de múltiplas maneiras representando transacções cada vez mais complexas. Então, segundo relata Denise Schmandt-Besserat, no seu estudo Before Writing (1992), deu-se uma espantosa transformação. As figuras começam a ser dispostas em recipientes de cerâmica, tendo sido feitas inscrições nesses vasos de forma a indicar os seus conteúdos. Estas inscrições possuíam uma forma semelhante à das figuras guardadas e constituem de algum modo a base da escrita cuneiforme, posteriormente desenvolvida por outros habitantes da região, como os acádios, os babilónicos e os assírios. As figuras esculpidas, plásticas, foram então substituídas por inscrições efectuadas sobre uma superfície, o que constitui uma primeira forma clara de escrita. Têm sido encontradas milhares de placas com caracteres de escrita cuneiforme em toda a região do Médio Oriente, indicando que o sistema de escrita foi usado não só a nível local mas também pelo comércio internacional e por outras formas de comunicação.

Entre as primeiras placas com escrita cuneiforme, as mais frequentes são as que representam transacções comerciais, a compra e a venda de propriedades, ou outros bens. Pensa-se que uma dessas placas, que se encontra actualmente no Museu de Londres, constitui o inventário de um armazém. A placa está dividida em quadrículas, cada uma delas enumerando um produto e a sua quantidade. O símbolo para a cerveja é um cântaro assente numa base pontiaguda e as quantidades são representadas por duas marcas, sendo que uma delas é produzida pela extremidade arredondada do estilete e representa um conjunto de seis, enquanto que a outra é produzida pela outra extremidade do estilete e indica as unidades. Mesmo que permaneça ainda alguma incerteza quanto à leitura mais correcta destas placas, a quadrícula indicada pode ser lida como “vinte e três barris de cerveja”.

Os paleógrafos têm notado o aparecimento de textos literários por alturas do terceiro milénio antes de Cristo. Estes textos indicam e reflectem de forma clara o conhecimento linguístico dos seus autores. A primeira característica a ter em conta prende-se com a introdução de sinais de palavras. O sinal que indica a cerveja nas placas cuneiformes mais antigas consiste numa figura em forma de V, semelhante ao vaso onde se guarda a cerveja, constituindo uma marca de comodidade e não um sinal da palavra cerveja. Do mesmo modo, o sinal que representa a abelha não designa necessariamente a palavra abelha, pode apenas representar a entidade abelha, como é comum acontecer na escrita por imagens praticada pelos povos indígenas da América do Norte, anteriormente referidos. Mas se o sinal para abelha[1] [bee] for também considerado adequado para representar o verbo ser [be], o sinal transformou-se no sinal de uma palavra, um logograma. O princípio subjacente a este caso é o mesmo do rébus, isto é, a utilização de um sinal que normalmente representa um dado objecto para representar uma entidade linguística possuidora de um som semelhante. Esta entidade nova é uma palavra. Este princípio do rébus foi amplamente utilizado na elaboração e desenvolvimento dos primeiros logogramas sumérios em silabários acádios. Sinais que representaram outrora entidades são agora utilizados para representar sílabas faladas que constituem palavras sem qualquer relação com aquelas. O mesmo princípio surge nas inscrições hieroglíficas egípcias e da sua descoberta dependeu a descodificação dessa escrita antiga e perdida. Os paleógrafos notaram ainda que o primeiro sinal, um pequeno quadrado no nome do Rei Ptolomeu, era idêntico ao quinto sinal do nome da Rainha Cleópatra, o que levou à descoberta de que esse sinal representava um som semelhante ao da letra P. Do mesmo modo, a figura semelhante a uma ave, na sexta e nona posição do nome da Rainha, representa um som semelhante ao da letra A. Descobriu-se também que o mesmo princípio de utilização do sinal de um objecto para passar a representar o som de uma sílaba ou de um fonema se encontra presente no sistema de escrita dos Antigos Maias, na América Central.

Entalhes e figuras representam um dado número de objectos pela repetição da sua ocorrência. Quatro ovelhas podem ser representadas por quatro marcas num bastão, quatro seixos numa bolsa ou por quatro figuras semelhantes a ovelhas atadas por um fio, como faziam os primeiros sumérios. Mas quando as quatro figuras são representadas por dois sinais, um que representa a entidade, a ovelha, e outro representando a quantidade, o número quatro, então, estamos perante o surgimento da escrita no seu sentido moderno. Os sinais já não são emblemas ou figuras, mas palavras, sinais linguísticos que possuem propriedades sintácticas que lhes permitem ser lidos como expressões de uma linguagem natural. Só quando se torna possível diferenciar a actividade de descrever o conteúdo de uma imagem da leitura de um texto é que um sistema de notação gráfica pode ser adequadamente considerado como um sistema de escrita. A evolução de um sistema de escrita que representa as propriedades da fala não constitui apenas uma enorme conquista técnica, mas também assinala um importante estágio na consciência das propriedades implícitas da linguagem.

A evolução das notações de números está claramente relacionada com a invenção de notações para a linguagem, embora ela implique a exigência adicional de que as notações sejam úteis para as funções de contabilização próprias da matemática. As primeiras notações possuíam um funcionamento de um para um, uma marca para cada item enumerado. O agrupamento de tais notações figurado, por exemplo, pela barra diagonal por cima de quatro marcas de forma a indicar um grupo de cinco terá sido elaborado para facilitar as operações de adição. Os primitivos sistemas de escrita cuneiforme apresentavam já esses agrupamentos ou bases. Enquanto que o sistema de numeração árabe é de base decimal, o sistema numérico sumério tem como base o seis. O número sessenta seria figurado como um conjunto de dez conjuntos de seis, assim como para nós o número vinte e cinco não é um conjunto de vinte e cinco uns mas sim de cinco cincos. É interessante constatar que ao serem inventadas as notações numéricas, rapidamente se desenvolveu a matemática como a disciplina na qual as propriedades dos números eram investigadas não só em si mesmas, como também em relação às suas supostas propriedades mágicas.

 

Stephen Chrisomalis, no seu artigo “The origins and co-evolution of literacy and numeracy”, publicado no Cambridge Handbook of Literacy, distingue os simples entalhes dos sistemas de notação numérica mais complexos. Alguns artefactos datados do período do Paleolítico Superior parecem ter constituído marcações numéricas, calendários lunares ou entalhes semelhantes ou dispositivos mnemónicos. Por oposição, sistemas de notação numérica constituem sistemas simbólicos estruturados, compostos por marcas gráficas trans-linguísticas e permanentes, para registar números. Entre estes incluem-se os numerais indo-arábicos, os numerais romanos e cerca de outros cem sistemas utilizados nos últimos cinco mil anos, dos quais apenas uma minoria é ainda utilizada.

No mínimo, terão sido inventados de forma independente cinco sistemas de notação numérica, enquanto no Antigo Peru existia um sistema de notação numérica, mas não um sistema de escrita de base fonológica. Todavia, na maior parte dos casos, as tradições de escrita incluem também uma forma de notação numérica.

 

A Aprendizagem da Escrita

Os processos pelos quais as crianças passam durante a aprendizagem da escrita dão-nos algumas indicações quanto à natureza especial da escrita. As crianças de cerca de dois anos de idade começam a fazer marcas no papel se possuírem os instrumentos adequados. Num primeiro momento, essas marcas são meramente expressivas, suscitando satisfação ao serem produzidas e não pelo que representam ou comunicam. Quando se lhes pergunta o que estão a desenhar, uma criança poderá responder: “Não sei, ainda não acabei.” Com a idade de três ou quatro anos, os desenhos representam objectos: uma flor, um cão, os pais ou a própria criança. As representações começam a inscrever-se num contexto e a adquirir características narrativas. É então que as suas propriedades comunicativas se tornam mais proeminentes e que as crianças começam a deixar marcas que indicam a sua propriedade e a mostrar as suas imagens aos outros ou a dispô-las de forma mais ostensiva.

Todavia, a distinção entre o que uma imagem diz e o que um texto diz permanece como um enigma por resolver no processo de aprendizagem da leitura e da escrita. As crianças antes de saberem ler poderão distinguir o pedido de “Desenha um gato” do pedido de “Escreve: ‘um gato’”, fazendo um desenho no primeiro caso e apenas um rabisco no segundo. Assim, ao pedir-se-lhes que escrevam ‘três gatos’, eles produzirão três rabiscos, um para cada gato e não dois, que corresponderiam às duas palavras “três” e “gatos”. Tais demonstrações indicam que o enigma se resolve aprendendo a pensar nas propriedades linguísticas da expressão, as palavras e os sons, em vez de pensar nas propriedades dos objectos ou acontecimentos descritos. Mais uma vez, sugere-se que desenhar constitui uma competência cognitiva mais fundamental do que a escrita e explica porque é que a literacia constitui uma tão grande dificuldade, mas também uma conquista social e psicológica tão importante.

 

Arte, Linguagem e Cultura

 

O nosso desafio consiste em compreender o passado a partir de vestígios materiais interpretados à luz da nossa própria experiência moderna. As culturas sem escrita deixam vestígios que dão conta de importantes aspectos da sua cultura. A invenção e o aperfeiçoamento de instrumentos têm sido, desde há muito, encarados como prova de um desenvolvimento evolutivo que seria específico da espécie humana. Do mesmo modo, outro importante vestígio da evolução humana consiste na utilização remota de símbolos visuais como figuras, entalhes e imagens gráficas que, além de manifestarem as práticas sociais de uma cultura, revelam as capacidades cognitivas dos nossos antepassados. Se tais primeiros símbolos visuais, incluindo as artes gráficas e plásticas, precedem a evolução da linguagem natural ou lhe sucedem constitui uma questão ainda por resolver. O que é certo é que os primeiros símbolos gráficos, tanto do ponto de vista histórico como do ponto de vista do desenvolvimento ontogenético das crianças, se desenvolvem independentemente da linguagem, permanecendo, em larga medida, como um modo alternativo de expressão e comunicação. Com efeito, estas funções dependem de diferentes regiões do cérebro. Apenas sob condições especiais, como o desenvolvimento da agricultura e da fixação urbana, é que tais representações visuais evoluíram para tipos especiais de formas gráficas que conhecemos como escrita. Os sistemas de escrita são dispositivos que ligam as representações gráficas às linguísticas, combinando recursos distintivos do cérebro. Assim, a escrita não é apenas uma prática socialmente útil, mas também um modo de explorar, desenvolver e elaborar um conjunto particular de recursos cognitivos.

A par do conjunto especial de formas visuais adoptadas para servir de elementos dos sistemas de escrita, outros símbolos visuais continuam a cumprir um vasto espectro de funções informativas, comunicativas e estéticas, cuja significação compete com a, há muito reconhecida, da escrita e da literacia.


Bibliografia

 

Gaur, A., A History of Writing, Londres, The British Museum,1984.

 

Gelb, I.J., A Study of Writing Chicago, University of Chicago Press, 1963.

 

Olson, D. R. , The World on Paper, Cambridge, UK,Cambridge University Press,1994.

 

Olson, D. R. & Torrance, N. J. (Eds.), The Cambridge Handbook of Literacy, Cambridge, UK, Cambridge University Press, 2009.

 

Goody, J. (Ed.), Literacy in Traditional Societies, Cambridge,Cambridge University Press, 1968.

 

Havelock, E.,  The Literate Revolution in Greece and its Cultural Consequences, Princeton, NJ, Princeton University Press, 1982.

 

Schmandt-Besserat, D., Before Writing. Austin, University of Texas, 1992.

 


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