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LinguagemImprimirDicionário critico

Simbólico

João Zilhão

A recente publicação de um amuleto com cerca de 35.000 anos, descoberto no sul da Alemanha e representando uma figura feminina, trouxe para primeiro plano mediático a questão das origens do simbolismo. É corrente a explicação segundo a qual esta e outras descobertas fazem prova de capacidades cognitivas “modernas”, aparecidas pela primeira vez na evolução humana em resultado da especiação do Homo sapiens, e permitindo compreender a sua rápida expansão de África para a Eurásia e concomitante extinção de formas humanas arcaicas (como, por exemplo, os neandertais). Os factos arqueológicos contradizem este ponto de vista, uma vez que há abundantes provas da existência de tais capacidades “modernas” em populações não sapiens, sugerindo que a linguagem, “pensamento simbólico” por definição, é provavelmente tão antiga quanto o género humano. As causas da explosão artística que se documenta na Europa a partir de há 40.000 anos, e que envolve o nascimento da arte figurativa, serão assim de natureza não cognitiva mas histórica, relacionadas com o crescimento demográfico e a intensificação das redes de interacção social.

Palavras chave: mitos, religião, linguagem, escrita, origens da arte

Introdução


Os últimos cinquenta anos de investigação científica estabeleceram, com poucas dúvidas, que os mais antigos antepassados do homem apareceram em África há cerca de dois milhões de anos. Pouco tempo depois, estas populações de Homo erectus expandiram-se para a Eurásia. Há cerca de um milhão e meio de anos já tinham alcançado a ilha indonésia de Java, mas ainda demoraria algum tempo para a Europa ser ocupada de forma estável.

A evidência mais antiga vem da Península Ibérica, onde os fósseis do designado Homo antecessor datam de há aproximadamente um milhão de anos. Os fósseis africanos coevos são escassos, mas, no seu conjunto, as provas indicam uma tendência para o crescimento do cérebro humano (com correlativas mudanças na morfologia do crânio) por toda a extensão do Velho Mundo. Os geneticistas têm relacionado estas mudanças com um segundo surto de migração para fora de África, representado arqueologicamente pela expansão do tecnocomplexo Acheulense, cujo artefacto lítico de referência é o chamado biface.

O isolamento geográfico subsequente levou à diferenciação destas populações acheulenses em duas linhagens. Na Europa e Ásia ocidental, há cerca de quinhentos mil anos, o Homo erectus deu origem aos neandertais. Na mesma altura, em África, o Homo erectus deu origem ao Homo sapiens (ou homem moderno) e, há cerca de cinquenta mil anos, no âmbito de um terceiro Out of Africa, espalhou-se pela Eurásia, Austrália e, por último, América.

Estes sapiens africanos são comummente considerados como os antepassados de todos os seres humanos, mas permanece controverso o papel desempenhado pelos neandertais eurasiáticos na evolução da humanidade. O seu nível de separação taxonómica, a real dimensão da sua diferenciação biológica, comportamental e cultural, e o seu destino último, estão entre os tópicos mais quentes da Paleoantropologia. Os neandertais já não existem, mas onde, quando, e como é que foram substituídos? E extinguiram-se sem descendência, ou foram assimilados pelas populações de humanos modernos em expansão, sendo também, portanto, em certo sentido, nossos antepassados?

Estas perguntas têm implicações fundamentais para a compreensão da emergência da arte, da linguagem e do pensamento simbólico na linhagem humana. A segregação geográfica prolongada dos dois taxa paleontológicos, Homo neanderthalensis e Homo sapiens, e a substituição do primeiro pelo segundo, levam muitos a supor que estamos espécies biológicas verdadeiramente diferentes. E, como as definições de manual exigem que as espécies difiram tanto em comportamento como em morfologia, o corolário é que diferenças comportamentais significativas, com implicações cognitivas, devem ter separado as populações “anatomicamente modernas” das “arcaicas” suas contemporâneas, nomeadamente os neandertais.

A noção de que a separação existiu ao nível de espécie biológica articula-se com a especulação de que certas características da cultura humana complexa que não estão documentadas no registo arqueológico do Homo erectus e de outros humanos primitivos – tais como a arte ou os rituais funerários – devem ter aparecido como consequência dos processos envolvidos na especiação dos sapiens africanos. No quadro desta hipótese de “Revolução Humana”, a ausência de tais características reflectiria a falta das capacidades cognitivas necessárias à sua expressão. Nesta perspectiva, só depois da aquisição dessas capacidades pelos primeiros “humanos modernos” é que os comportamentos correlativos correspondentes podiam ser externalizados de forma arqueologicamente visível, como efectivamente acabaria por acontecer.

Ao longo da última década, os arqueólogos têm podido obter provas empíricas concordantes com este paradigma em sítios da Palestina, de Marrocos e da África do Sul datados de há cerca de 75.000-100.000 anos: trata-se de contas de colar feitas de conchas marinhas perfuradas, interpretadas como objectos de adorno pessoal e, nalguns casos, encontradas em associação com restos ósseos do homem moderno. No presente etnográfico, os adornos veiculam a identidade social das pessoas – pertença a um grupo, género, idade, estado civil, etc. Lidar com estes sistemas simbólicos de apresentação e representação pessoais implica uso de linguagem e exige capacidades cognitivas desconhecidas entre os nossos mais próximos parentes vivos, os chimpanzés. Embora não esquecendo que, até à invenção da escrita, toda a evidência de linguagem é, e só pode ser, indirecta, nada disto é controverso. Mas será que a emergência de tais capacidades na linhagem humana é tão recente quanto o postulada pela “Revolução Humana”?

Um dos maiores desafios empíricos que este paradigma tem pela frente é o de que o putativo evento de especiação responsável pela emergência do Homo sapiens teria ocorrido há 15.0000-200000 anos. Sendo assim, suscita-se uma questão óbvia: se o pensamento simbólico e a cognição moderna são uma simples subproduto dos processos biológicos envolvidos nesse evento de especiação, por que é que as primeiras manifestações dessas capacidades no registo arqueológico (como as contas de colar africanas, feitas de conchas marinhas) tardaram pelo menos 50.000 anos em aparecer? E porque é que foi necessário esperar outros 50.000 anos para que surgisse a arte figurativa (cujos exemplos mais antigos são as pinturas em gruta de Chauvet, em França, e as figurinhas de marfim animalistas, antropomórficas e teriantrópicas datadas de há 35-40.000 anos que têm sido encontradas em diferentes grutas da Suábia, na Alemanha)?

O registo etnográfico também nos diz que a exibição à vista de objectos que veiculam informação sobre a identidade pessoal e social dos indivíduos que os transportam responde à possibilidade de encontros com estranhos ou pessoas com que nos cruzamos infrequentemente. Há duas boas razões para que assim seja: em primeiro lugar, sem alguma experiência anterior de interacção, o significado dos símbolos visuais não seria entendível pelos destinatários da respectiva exibição; em segundo lugar, não são necessários símbolos materiais para dar a conhecer a nossa identidade e filiação a familiares e conhecidos próximos. É muito possível, por conseguinte, que o surgimento de adornos no registo arqueológico reflicta a ultrapassagem de patamares demográficos acima dos quais se tornavam necessárias, para efeitos de aliança, troca ou acasalamento, redes de interacção social a longa distância.

Neste quadro, a ausência de evidência de cognição “moderna” antes dos últimos 100.000 anos não seria então evidência da sua ausência entre os humanos anatomicamente “modernos” de épocas mais remotas; apenas significaria que, em tais épocas, a sua vida social ainda não teria efectuado uma ‘libertação da proximidade” geradora da necessidade de adquirir identidades simbólicas e formas de as exibir. Mas, uma vez que admitimos que o aparecimento no homem anatomicamente “moderno” das primeiras provas materiais de uma cognição também ela “moderna” se pode relacionar com processos sociais e não biológicos, temos a obrigação de nos perguntar se o mesmo não se aplicará também às populações mais antigas, nomeadamente às de Homo erectus. Dado que os cérebros não fossilizam e a evidência de linguagem no período paleolítico é sempre indirecta, não será possível que, cognitivamente, esses nossos mais antigos antepassados tenham sido também inteiramente humanos, isto é, dotados de características comportamentais tais como a linguagem e correspondentes implicações (paleontologicamente invisíveis) de natureza neurológica? Dito de outro modo: será que a linguagem e o pensamento simbólico apareceram nos primeiros e não nos últimos estádios da evolução humana, embora só mais recentemente tenham começado a exteriorizar-se de forma susceptível de preservação no registo material do passado pré-histórico?

Dadas as provas genéticas e paleontológicas de que, há cerca de meio milhão de anos, o ramo europeu que originou os neandertais já se encontrava separado do tronco comum africano, a arqueologia dos neandertais fornece o campo ideal para testar as diferentes teorias sobre o surgimento da linguagem e da cognição “moderna”. Se a tese da “Revolução Humana” está certa, então nem os adornos pessoais nem qualquer outra forma de arte deveriam ter existido entre os neandertais. Mas se existiram, então a “Revolução Humana” é refutada e temos de buscar formas alternativas de explicar a emergência desses comportamentos no registo arqueológico.


Neandertalidade


A designação “neandertal” deriva do fóssil encontrado em 1856 numa gruta do vale de Neander, perto de Düsseldorf, chamada Kleine Feldhoffer. Contudo, os cientistas actuais não são os únicos para quem a palavra “Neandertal” tem um significado bem definido. Em muitos países, sobretudo nos de língua inglesa, a palavra é de uso corrente na linguagem comum para desqualificar indivíduos indesejados, incluindo adversários políticos. Ao abrirmos um dicionário deparamo-nos imediatamente com estes significados alternativos. O Cambridge On-line, por exemplo, dá-nos os seguintes: 1) “relativo a um tipo de gentes primitivas que viveu na Europa e Ásia entre aproximadamente 150.000 e 30.000 anos atrás”; dito de “gente ou crenças muito fora de moda e resistentes à mudança”; 3) dito “(de gente) mal-educada e agressiva.”

De forma a perceber-se a persistente má reputação dos neandertais, temos de ter em conta que, em meados do século XIX a evolução era concebida num quadro mental progressivista – o desenvolvimento direccional de formas de vida cada vez mais complexas e sofisticadas, culminando no ser humano, a partir de um antepassado comum simples e primitivo. A evolução implicava ainda, como o próprio Darwin não deixaria de explicitar, que a humanidade tinha tido antepassados de tipo simiesco. Neste contexto, duas coisas eram, em retrospectiva, inteiramente previsíveis: em primeiro lugar, a predisposição para interpretar qualquer forma fóssil intermédia como “em parte símio/em parte humano”, não só em morfologia mas também em comportamento; em segundo lugar, e porque as coisas só são o que são por oposição àquilo que não são, uma predisposição para imaginar a “animalidade” desses antepassados como consistindo em características que representassem o exacto oposto da “humanidade” tal como entendida pelos vitorianos.

As coisas pioraram ainda mais quando, pouco depois, ao preconceito progressivista se veio juntar o erro científico. Um dos primeiros esqueletos neandertais completos e articulados que se descobriu, faz agora cerca de 100 anos, é o da gruta de La Chapelle-aux-Saints, em França. O famoso antropólogo Marcelin Boule fez uma descrição clássica, e em muitos aspectos paradigmática, deste fóssil. Infelizmente, ele também diagnosticou como condição neandertal “normal” numerosas deformações artríticas desenvolvidas num estádio avançado da vida desse indivíduo já idoso. Em consequência, tanto na opinião da “rua” como na científica, generalizou-se a noção de que os neandertais tinham sido um ramo lateral, um beco-sem-saída da evolução, diferente dos verdadeiros humanos e inferior em relação a eles: em 1953, um filme famoso de Hollywood retratava ainda os neandertais como o arquétipo do “meio-homem/meio-besta”.

Nos anos sessenta, porém, esta visão dominante entrou em crise. Pôs-se a descoberto o erro de Boule, e passou a dar-se mais ênfase às implicações derivadas de um conjunto de esqueletos que haviam sido encontrados na Palestina nos anos trinta. Estes fósseis, recuperados em duas grutas do Monte Carmelo muito próximas uma da outra, mostravam uma anatomia intermédia, levando a que se tenha proposto que a região teria funcionado como uma zona de miscigenação entre neandertais europeus e primeiros sapiens africanos. Por outro lado, do ponto de vista arqueológico, vinha-se tornando cada vez mais evidente que, durante o período de 100.000 a 50.000 anos atrás, os dois grupos tinham andado a fazer basicamente as mesmas coisas. Os seus instrumentos de pedra eram indistinguíveis, e ambos tinham enterrado os seus mortos, prática que implica uma visão do mundo e crenças religiosas. Em resumo, as duas linhagens comportavam-se de formas cujo nível de complexidade requeria o uso de linguagem e de símbolos, como seria de esperar tendo em contas as suas capacidades cranianas – sendo que os cérebros dos neandertais eram aliás ainda maiores que os nossos.

Estes desenvolvimentos levaram muitos cientistas a interrogar-se se, em vez de um ramo lateral extinto, os neandertais não seriam antes uma variante regional da espécie e, como tal, antepassados directos dos europeus actuais. Nesta perspectiva, designada como “Hipótese Multiregional”, a diversidade racial actual seria o resultado de uma continuidade de raízes profundas que uniria as populações de hoje com as dos nossos mais remoto passado. Teria existido um e um só evento Out of Africa, os europeus e asiáticos seriam os descendentes, através de uma série de mudanças morfológicas convergentes, dos primeiros colonizadores Homo erectus do planeta, e certas características físicas – tais como os narizes grandes dos europeus – seriam um exemplo da persistência do “sangue” neandertal na humanidade actual.

Nos anos oitenta, com o surgimento de uma nova linha de investigação, a genética humana, esta visão dos neandertais como fundamentalmente humanos voltou a ser questionada. O estudo da variação do ADN mitocondrial das populações actuais levou à conclusão de que estamos todos relacionados de muito perto, o que implica um antepassado comum muito recente e que teria vivido em África há cerca de 150.000 anos apenas. Como o ADNmt é herdado por via materna, esse antepassado comum foi designado Eva. Neste cenário, a descendência dessa Eva mitocondrial teria subsequentemente substituído os neandertais e outras populações arcaicas coevas da Eurásia, que se teriam assim extinto, todas, e sem descendência. A partir de 1997, esta perspectiva foi reforçada pelos resultados da análise do ADNmt fóssil extraído do neandertal descoberto em 1856, a que se seguiram, nos últimos anos, os resultados preliminares da sequenciação do genoma de um outro indivíduo proveniente da gruta de Vindija, na Croácia.

A opinião científica maioritária viu nestes resultados a corroboração de que os neandertais eram filogeneticamente distantes e tinham pertencido a uma espécie diferente. Como tal, e não tendo passado por uma “Revolução Humana”, não teriam podido dispor (ou, quando muito, apenas poderiam ter tido formas muito rudimentares) de linguagem. Mais ainda, não teriam conhecido formas de divisão do trabalho e de organização social além das estritamente necessárias à reprodução, e os supostos enterramentos neandertais não corresponderiam provavelmente a mais do que a formas de remoção/eliminação de cadáveres desprovidas de qualquer significado religioso. Nestas circunstâncias, o resultado de situações de contacto só podia ter sido uma substituição total sem miscigenação: os “humanos” teriam visto os “neandertais” como parceiros sexuais impróprios, e a superioridade cognitiva dos nossos antepassados teria tido como a consequência inevitável que, na competição pelos territórios e seus recursos, tivessem sido eles, e não os neandertais, a prevalecer.


Paradigma perdido


A evidência empírica gerada pela última década de investigação falsificou os pilares em que assentava o conceito de “Revolução Humana”. Ironicamente, ao mesmo tempo que os arqueólogos que trabalhavam em África faziam descobertas que apoiavam a existência de cognição “moderna” dezenas de milhares de anos antes do Out of Africa dos filhos de Eva (e, eventualmente, explicando-o), os arqueólogos que trabalhavam na Europa também descobriam na cultura material dos neandertais eurasiáticos coisas que, contrariando os postulados da “Revolução Humana”, implicavam capacidades cognitivas e intelectuais complexas e sofisticadas.

Por exemplo, numa mina de lenhite da Alemanha, perto de Schöningen, três artefactos de grande importância, com cerca de 400.000 anos de idade, foram descobertos em escavações levadas a cabo entre 1994 e 1997. Feitos em madeira de abeto, compridos e aguçados, tinham espessura e peso máximos na parte da frente, adelgaçando gradualmente em direcção à extremidade oposta. Em todos estes aspectos, assemelham-se aos dardos usados nas modernas competições de atletismo, sugerindo que seriam usados mais como projécteis de arremesso à distância do que como lanças de espetar ao perto. O que implica ainda que as leis da balística a que respondem os dardos modernos já eram conhecidas dos pais fundadores da linhagem neandertal.

Neumark-Nord, outra mina de lenhite alemã, forneceu também um bom exemplo de artesanato neandertal sofisticado. A análise química de resíduos orgânicos aderentes a uma lasca de sílex recuperada em níveis datados de há mais de 100.000 anos mostrou que se tratava de um extracto de casca de carvalho macerado em água, como os que até aos dias de hoje se utilizaram no curtimento de peles para a manufactura de roupa e de calçado impermeável. Nos anos trinta, num abrigo sob rocha das imediações (o sítio de Ilsenhöle), já se tinham aliás encontrado algumas sovelas de osso, datadas de há cerca de 40.000 anos, ou seja, da época em que os últimos neandertais habitavam a região. No seu conjunto, estes factos apontam para uma longa tradição no curtimento de peles para a fabricação de vestuário e outro equipamento.

Nada disto deveria surpreender-nos. Na Europa central da Idade do Gelo, onde, considerando o efeito do vento, as temperaturas médias de inverno variavam entre -20ºC e – 30ºC, não era possível sobreviver sem isolamento térmico artificial de boa qualidade. Os modelos termorregulatórios mostram que seria de -24ºC a temperatura mínima externa que um neandertal de fato e gravata teria sido capaz de suportar. Sem sequer essa protecção básica, só uma camada de gordura sob a pele com mais de 3 cm de espessura podia proporcionar protecção equivalente. O peso dessa gordura, contudo, seria de cerca de 50 Kg, uma quantidade que deixaria muito pouco disponível para perfazer com músculo, osso e outros tecidos um indivíduo neandertal com 80 Kg de peso; ou, se adicionado aos 80 Kg de um corpo musculado e escorreito, transformaria um macho de 1,65 m de altura média num indivíduo obeso, incapaz de procurar a sua subsistência numa sociedade onde não havia dinheiro, automóveis ou centros comerciais. A implicação é clara: tal como os povos subárcticos dos nossos dias, os neandertais devem ter possuído não só vestuário de boa qualidade como ainda todo o restante equipamento sem o qual seria impossível sobreviver nesses ambientes.

Königsaue, outra mina de lenhite alemã, forneceu indícios ainda mais probantes de que os neandertais eram realmente muito bons em química. No decurso de escavações de salvamento realizadas em 1963-64 encontraram-se dois fragmentos de um mastique de casca de bétula utilizado para encabar ferramentas feitas em sílex, um dos quais preservava a impressão digital do neandertal que o tinha manipulado. A datação directa destes objectos pelo radiocarbono forneceu uma idade superior a 45000 anos, e um estudo da sua composição mostrou que não são produtos naturais sem modificação (como acontece com o betume usado no Próximo Oriente para os mesmos fins desde há pelo menos 200.000 anos). Pelo contrário, trata-se de uma matéria-prima sintética, artificial, a primeira que na história do homem alguma vez se fabricou. A sua produção fez-se através de uma combustão lenta, sem chama, ao longo de várias horas, processo que exige o respeito de um estrito protocolo de manufactura: com exclusão de oxigénio, e a temperatura muito controlada, entre 340ºC e 400ºC. Até hoje, a arqueologia experimental só conseguiu replicar esta técnica de manufactura utilizando tecnologias de fogo que só se encontram documentadas a partir do muito mais recente período Neolítico.

Esta evidência indica que, na realidade, os neandertais eram, do ponto de vista cognitivo, tão bem equipados quanto nós. Mas poderá dizer-se o mesmo da sua biologia? Será que eram mesmo uma espécie separada? E terá a sua extinção final estado relacionada com o seu grau de afastamento no plano biológico?

Uma análise cuidadosa do ADNmt mostra que tais noções têm pouca sustentação. Dado que a diversidade interna das populações actuais de chimpanzés é superior à do conjunto que se obtém adicionando os neandertais à humanidade actual, a interpretação parcimoniosa da evidência genética é que, pelos padrões dos primatas, o homem é anormalmente homogéneo, não que os neandertais eram uma espécie diferente. Uma tal homogeneidade está de acordo com a hipótese de uma origem recente do homem moderno, mas não exclui a possibilidade de os neandertais e outros grupos arcaicos terem contribuído para a bolsa de genes de populações subsequentes.

Na realidade, a mais recente síntese da história da dispersão do homem moderno feita com base no ADNmt data de há cerca de 30000 anos a imigração dos portadores das mais antigas variantes existentes (haplótipos H, I e U). Uma vez que, anatomicamente, o homem moderno está documentado na Europa desde há pelo menos 40000 anos, segue-se que as variantes do ADNmt características desses primeiros povoadores estão tão extintas quanto a dos neandertais. Obviamente, isto não significa que esses tais primeiros europeus modernos tivessem pertencido a uma espécie diferente da nossa, que depois se extinguiu sem descendência. Pela mesma ordem de ideias, não se pode inferir tal coisa para os neandertais com base na ausência do seu ADNmt entre os humanos actuais. A mensagem a reter é que o ADNmt dos europeus actuais reflecte uma história demográfica recente, e não as interacções remotas (ou sua ausência) entre sapiens africanos e povos arcaicos não africanos.

Além disso, os resultados de estudos recentes contradizem a noção de que os neandertais eram uma espécie diferente e mostram que, mesmo que tivessem sido, seriam tão próximos que a miscigenação à época do contacto era inevitável, e aconteceu mesmo. É o que sugere, por exemplo, o gene da microcefalina, um gene que está envolvido no controlo do tamanho do cérebro durante o desenvolvimento, cujo alelo adaptativo, que ocorre em cerca de 70% dos humanos actuais, parece corresponder a introgressão a partir de uma linhagem arcaica, provavelmente a dos neandertais. E, apesar de aspectos não resolvidos relacionados com a dificuldade em descontaminar o ADN fóssil, os resultados do projecto do genoma do Neandertal também mostram que, em 30% dos SNPs (single nucleotide polymorphisms; polimorfismos de nucleótido único) para os quais a comparação foi possível, o indivíduo neandertal analisado possuía o alelo derivado (isto é: humano) e não o ancestral (ou seja: dos chimpanzés). Dado o tempo de divergência entre as duas linhagens, uma percentagem tão elevada implica fluxo genético e é incompatível com modelos simplistas de isolamento reprodutivo entre as duas populações, neandertais e sapiens.

 

Mais significativo ainda, um estudo recente sobre a interesterilidade entre populações como função do tempo decorrido desde a divergência a partir de um antepassado comum sugere que o debate relativo ao estatuto taxonómico dos neandertais não é muito diferente da proverbial controvérsia bizantina sobre o sexo dos anjos. Esse estudo mostra que, de entre as muitas linhagens de mamíferos para as quais estão disponíveis dados moleculares ou fósseis, é de 1,4 milhões de anos o tempo mínimo necessário para que se gere separação reprodutiva completa entre dois ramos que se diferenciam a partir de um antepassado comum. Este mínimo foi o obtido para duas espécies de gazelas. Entre os hominídeos, contudo, o intervalo entre gerações é pelo menos quatro vezes maior. Por isso, para o género humano, a implicação deste estudo é que não pode haver isolamento reprodutivo entre linhagens contemporâneas sem que tenham decorrido cinco a seis milhões de anos de divergência desde o momento da respectiva separação. Tal intervalo de tempo, porém, corresponde à amplitude total da vida evolutiva da família dos hominídeos, e é pelo menos dez vezes a duração do intervalo que separa a época do contacto do momento em que se deu a diferenciação entre neandertais e modernos. Por padrões de mamíferos, portanto, os neandertais não eram, e não podiam ter sido, uma espécie biológica distinta.


Paradigma encontrado


Até há cerca de dez anos, a presença de adornos em sítios arqueológicos da época dos últimos neandertais era reconhecida pelos apoiantes da “Revolução Humana” mas desconsiderada como simples resultado de uma “imitação sem compreensão” de comportamentos do homem moderno observados em situações de contacto. A analogia seguinte, proposta por um distinto arqueólogo britânico, tornou-se famosa: “se uma criança coloca um fio de pérolas estará provavelmente a fazer isso para imitar a sua mãe e não para simbolizar a sua riqueza, enfatizar o seu estatuto social, ou atrair o sexo oposto”.

Os estudos sobre a cultura castelperronense de França e do norte de Espanha realizados a partir de 1998 mudaram radicalmente este panorama. Na Grotte du Renne, em França, os níveis castelperronenses produziram sovelas de osso idênticas às de Ilsenhöle, mas com três diferenças: eram em quantidade muito superior; algumas apresentavam padrões decorativos regulares; e estavam associadas com objectos de adorno pessoal. Estas descobertas foram publicadas nos primeiros anos da década de sessenta, mas o seu significado permaneceu ambíguo por causa das dúvidas sobre a autoria do Castelperronense. Em 1979, contudo, encontrou-se um esqueleto neandertal em contexto castelperronense no sítio francês de St. Césaire, e, em 1996, a associação foi confirmada por análises TAC à estrutura do ouvido interno preservada nos restos fragmentários da Grotte du Renne. Tornou-se assim claro que o Castelperronense, com a sua variada gama de adornos pessoais, era um desenvolvimento neandertal independente, ocorrido na Europa vários milhares de anos antes da imigração do homem moderno. A conclusão de que a sociedade neandertal estava simbolicamente organizada saiu ainda mais reforçada da análise dos vestígios de uso encontrados em centenas de pedaços de pigmento negro provenientes da gruta de Pech de l’Azé, outro sítio francês um pouco mais antigo. Essas análises concluíram que se tratava de lápis usados para a pintura dos corpos.

Em resumo: os neandertais tardios tinham alcançado um nível de desenvolvimento cultural idêntico àquele que está documentado entre os seus contemporâneos africanos. O que aconteceu quando estas duas tradições simbólicas finalmente se encontraram deveria por isso ser tratado sem quaisquer preconceitos. Será que as duas linhagens trocaram genes e memes? Ou será que se evitaram mutuamente como regra, acabando por daí resultar a extinção de uma delas?

 

As respostas devem ser encontradas na biologia e na cultura das populações do pós-Contacto, as dos primeiros humanos modernos da Europa. Se nelas não encontramos contribuições dos neandertais, ficaremos autorizados a concluir que interacção e miscigenação foram triviais ou inexistentes. Mas, se tais contribuições forem visíveis, deveremos então concluir que houve efectivamente interacção e miscigenação, independentemente de, subsequentemente, essas contribuições terem ou não acabado por perder-se.

Em 1998, a descoberta e escavação da sepultura de uma criança de cinco anos de idade no abrigo sob rocha de Lagar Velho, em Portugal, veio carrear provas de peso em favor da hipótese que uma escola de pensamento até então bastante minoritária vinha há vários anos advogando: a de que as populações de origem africana que se expandiram para a Europa se teriam cruzado com os neandertais autóctones, cujo desaparecimento teria assim resultado de um processo de assimilação mais do que de extinção sem descendência. Essa criança, na verdade, apresentava um mosaico anatómico em que características modernas, como o queixo pronunciado e a abóbada craniana elevada, se combinavam com características reminiscentes ou mesmo distintivas dos neandertais e de outras populações arcaicas eurasiáticas, como a robustez dos ossos das pernas, as proporções do corpo (adaptadas ao frio, de tipo árctico), e vários outros pormenores da morfologia do crânio, mandíbula e dentição: sabendo-se que estas características são geneticamente herdadas, a sua presença implica uma ancestralidade em parte neandertal. Em 2003-2005, pouco após a descoberta de Lagar Velho, a mesma equipa viria a descobrir na gruta romena de Oase dois fósseis com idêntica combinação de características anatómicas modernas e neandertais: a mandíbula de um jovem adulto e o crânio quase completo de um adolescente, datados de há 40000 anos (ou seja, de momento, os mais antigos fósseis do homem moderno conhecidos na Europa).

Os dados arqueológicos estão de acordo com estas interpretações. O Protoaurignacense é uma cultura da Europa central e ocidental contemporânea dos fósseis de Oase e, como tal, a primeira entidade cultural do continente que pode ser atribuída com confiança ao homem moderno, como aliás decorre também da natureza dos seus objectos de adorno: na sua maioria, pequenas contas feitas de conchas marinhas de taxonomia diversa mas morfologia (em forma de cesta) semelhante às das conchas usadas nas culturas de homens modernos do Próximo Oriente e de África, onde esta tradição remonta até há uns 100.000 anos. Na comparação com estas culturas, no entanto, o Protoaurignacense apresenta algumas inovações, nomeadamente o uso de pendentes feitos de dentes de animais (sobretudo de veado e de raposa). Este tipo de pendentes é completamente desconhecido em África e no Próximo Oriente até há cerca de 40000 anos, mas corresponde precisamente ao que se encontra nas culturas pré-Contacto dos neandertais (como o Castelperronense). A explicação parcimoniosa destes elementos de descontinuidade com a tradição africana de ornamentação pessoal é a de que o homem moderno os adquiriu em resultado do intercâmbio cultural com as sociedades indígenas europeias, neandertais, onde esses elementos primeiro apareceram.


Conclusão

A implicação destas descobertas é que, no sentido estrito das suas formulações originais, a “Evolução Multirregional” e a “Eva Mitocondrial” são hoje em dia obsoletas. No que respeito ao tempo e ao modo da evolução humana recente, as provas arqueológicas e paleontológicas favorecem modelos de “Assimilação” e refutam a ideia de que os neandertais eram uma espécie diferente. Mesmo para a linha dura dos apoiantes da tese da existência de uma separação fundamental entre sapiens e neandertais, as provas têm duas implicações importantes: primeiro, a de que a emergência independente de manifestações arqueologicamente visíveis de comportamento simbólico pleno, supostamente exclusivo dos sapiens, também se pode observar na trajectória evolutiva de outras “espécies” humanas; segundo, a de que os fundamentos biológicos/genéticos desse comportamento devem portanto ter aparecido no género humano ainda antes da separação entre as linhagens africana e europeia.

Portanto, mesmo no quadro de perspectivas multi-específicas da evolução humana, o corolário da última década de descobertas empíricas é a refutação das explicações da emergência de “comportamentos modernos” como um simples subproduto de um putativo evento de especiação ocorrido em África no parte final do Plistocénico Médio – quando a linhagem neandertal começou a divergir, há meio milhão de anos, o hardware para o pensamento simbólico já existia no cérebro humano. Esta conclusão tem mais dois corolários: em primeiro lugar, o de que a pesquisa dos processos genéticos e cognitivos subjacentes ao aparecimento da linguagem e do simbolismo na linhagem humana deve ser reorientado para as questões relacionados com a diferenciação e evolução das populações de Homo erectus, entre um e dois milhões de anos antes do presente; em segundo lugar, o de que a muito mais tardia emergência da prática da ornamentação pessoal representa um salto qualitativo na cultura, reflectindo factores demográficos e sociais.

O lugar-comum muitas vezes repetido segundo o qual primeiros homens modernos da Europa teriam sido “artistas espantosamente precoces”, cuja cognição superior era suficiente para explicar o colapso dos neandertais, também está em contradição com os factos. As capacidades artísticas documentadas entre os primeiros europeus modernos não diferem das que se conhecem entre os últimos neandertais, e consistem simplesmente na marcação padronizada, com objectivos decorativos ou funcionais, de instrumentos de osso. A primeira arte figurativa (as pinturas de grutas e as figurinhas de marfim de França e do sul da Alemanha) só aparece, na realidade, uns cinco milénios após os primeiros indicadores arqueológicos e paleontológicos da imigração do homem moderno. Tal como para os objectos de adorno pessoal, a explicação para estes novos desenvolvimentos deve ser buscada nas transformações que nessa altura terão ocorrido nas sociedades humanas, não nos cérebros.

O registo etnográfico abunda em exemplos de como que a arte rupestre funciona em primeiro lugar como uma forma de incorporar/transmitir significados económicos, sociais e ideológicos a/sobre determinados lugares, e os milhares de petróglifos de ar livre do vale do Côa, em Portugal, mostram que assim deverá ter sido também no Paleolítico. Portanto, a explicação parcimoniosa para a razão pela qual é só há cerca de 35.000 anos que a arte aparece no registo arqueológico é a de que só então terá surgido a necessidade de sistemas de identificação/diferenciação social estendendo-se para além do indivíduo e incluindo as paisagens e os recursos reclamados como território pelos diferentes grupos a quem as pessoas exibiam a sua pertença através da ornamentação do corpo. As figurinhas esculpidas, por sua vez, deverão corresponder a manifestações desse mesmo fenómeno nas arenas do comportamento individual e doméstico.

A necessidade de tais sistemas pode ser facilmente explicada como consequência do sucesso adaptativo, com a inovação tecnológica a gerar crescimento demográfico e implicando tanto uma maior competição entre grupos como uma maior regulação dessa competição. Num tal contexto, é fácil de compreender o valor adaptativo do aparecimento de comportamentos cerimoniais relacionados com a propriedade e os direitos sobre os recursos, e do desenvolvimento de mitos e sistemas de crenças religiosas relacionando esses direitos com antepassados reais ou míticos. Aí estão as origens da arte, e não numa mutação tardia habilitando os humanos modernos com a capacidade do pensamento simbólico. O hardware correspondente, com efeito, deve ter estado disponível desde que o tamanho e a forma da caixa craniana entraram na amplitude de variação actual e o registo cultural documenta comportamentos que exigem a linguagem, isto é, pensamento simbólico por definição. Os fósseis indicam que, há meio milhão de anos, já esse Rubicão tinha sido atravessado. Daí para cá, tudo o resto é História.

 

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