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CulturaImprimirDicionário critico

Cavernas

José Bragança de Miranda

Boa parte do pensamento moderno sobre as origens da arquitectura procurou afastar-se da ideia de um protótipo como é o da «cabana primitiva», com origem em Vitrúvio e retomado por Lagier. Encontra-se, por exemplo, em Quatremère de Quincy (1755-1849) uma tentativa mais matizada de pensar as origens do tectónico, que recorre a determinações históricas e geográficas, propondo uma tipologia de edificações que distingue entre a caverna própria das comunidades de caçadores, a tenda dos pastores nómadas e a cabana característica das comunidades sedentárias de agricultores. Trata-se de uma tipologia abstracta, e o próprio Quatremère tende claramente a privilegiar a cabana enquanto manifestação primordial da arquitectura.

Palavras chave: Cabana; Cultura; Arte da Pré-História

Tudo indica que a procura das origens é desencaminhadora, servindo para funções mitopolíticas de todo o género. De facto, a origem da arquitectura deve ser procurada no impulso construtivo e tectónico que acompanha toda a cultura humana e a sua vontade de segurança. Ora, tudo serve de matéria para a construção. Se uma caverna é uma reentrância natural da terra, escavada pelas águas ao longo dos milénios, quando é usada para protecção ou para habitar torna-se de imediato em construção, por razões essenciais. Como disse Marx «Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquitecto ao construir uma colmeia. Mas o que distingue o pior arquitecto da melhor abelha é que ele figura na mente a sua construção antes de transformá-la em realidade». (Marx, Karl - O Capital). Antes de mais, constrói-se na imagem e pela imagem. As belas imagens da arte rupestre atestam a omnipresença deste facto.

 O caso da caverna é sintomático, pois não sendo aparentemente uma construção é uma imagem primordial onde se expressa a pulsão tectónica e tudo aquilo que acarreta - a vontade de um mundo fechado, perfeito e sem contingência. Se a cabana servia para sublimar a arquitectura medieval, para libertar o tectónico das figuras religiosas e míticas, a modernidade é inseparável da pureza da razão e da purificação pela razão, o que levou Loos a sustentar que «ornamento é o crime». Este movimento de purificação tem uma das suas origens filosóficas na bem conhecida alegoria da caverna de Platão, apresentada no livro VII da República. Para Platão a caverna fechada é uma imagem do mundo, formado pela projecção de imagens e sons nas paredes da caverna, facto desconhecido pelos habitantes e que apenas o filósofo pode revelar. Neste aspecto, o facto de ser um espaço fechado faz dela um modelo em miniatura do mundo, permitindo explorá-lo pelo pensamento e corrigi-lo pela acção. O facto de ser fechada, faz dela um modelo imaginável e trabalhável do mundo. No romance de José Saramago A Caverna (2000) ainda ecoa esta crítica platónica da existência, fazendo da caverna platónica uma alegoria do capitalismo contemporâneo, para denunciar a sua expropriação da vida e a transformação das pessoas em sombras. A ideia de que o «mundo» possa ser transformável apresenta os seus perigos. Em Saídas da Caverna (Höhlenausgänge, 1989), Hans Blumenberg procura mostrar a afinidade profunda entre a alegoria da caverna e o projecto técnico da modernidade, descolado da vida e diminuindo a experiência vital que ocorre nesse espaço fechado, a de uma invenção de si e do mundo: «É através da sua passagem pela caverna que o homem se torna no animal sonhador». Para Blumenberg o desastre está na saída da caverna, onde podia acolher-se em segurança, enquanto no exterior campeavam os perigos e as ameaças mortais. O sonho que colocava a natureza a uma certa distância é o começo de um pensamento onde luz e sombra são inextricáveis. É esse o modelo da cidade que defende, quando sustenta que «a cidade é a recapitulação da caverna por outros meios», o que já era o pressuposto de Platão, mas que Blumenberg encara como «um escudo contra todas as realidades que não emanam da própria cidade e que não são incorporadas nela como meros materiais». A versão de Platão, que faz equivaler a existência a uma prisão e o real à simples aparência, parece dar sentido à suspeita de Jacob Burckhardt de que a alegoria se baseava na situação dos escravos nas minas de prata atenienses, sempre acorrentados no interior delas e aos quais os guardas lançavam os alimentos como a animais. 

O diferendo em torno das imagens revela que nelas se passa o essencial e que é nelas que o platonismo quer vencer. Com a descoberta das imagens paleolíticas no século XIX as imagens começaram a libertar-se e a seguir o seu curso no mundo. Não admira, portanto, que o chamado primitivismo de princípios do século XX, acima de tudo anti-idealista, tenha dado tanta importância às imagens nas cavernas, cujas paredes de pedra serviam de ecrã e de arquivo para algo de volátil e que aguardou milhares de anos para recomeçar a navegar pelo mundo. A maneira como a alegoria da caverna determinou o ocidente mostra bem que o perigo está em transformar a caverna em imagem em vez de nos abrirmos às imagens que contêm. As imagens rupestres ficaram à espera encerradas nesse espaço fechado, mas sonharam sempre com o mundo fora da caverna. 

O difícil acesso a certas cavernas onde se encontra a arte pré-histórica, a dificuldade em iluminá-las, leva a pensar que correspondiam a espaço reservado, senão mesmo interdito. O que tendeu a fazer privilegiar as teses sobre a religião primitiva e a sua relação com essa forma de «arte». Trata-se de um evidente anacronismo, pois a religião surge tardiamente na história. As teses de Lewis-Williams e de Jean Clottes sobre o xamanismo primitivo, embora demasiado presas à ideia de uma psique humana de um cognitivismo abstracto, também ele anacrónico, parece ser de utilidade, embora estejam longe de ser universalmente aceites. O xamanismo corresponde a uma série de técnicas para atingir um transe ou êxtase, recorrendo a uma série de meios como as drogas, o movimento vertiginoso, a abstinência de alimentos, de água, etc. Para estes autores as pinturas paleolíticas seriam feitas por xamãs nesses estados alterados da consciência, mas é bem mais essencial o facto de que o xamanismo opera junto da comunidade. O isolamento das cavernas e as dificuldades que rodeiam o seu visionamento permitem pensar que as cavernas eram locais sagrados, porque reservados e fechados. A maneira como os oráculos gregos e os magos egípcios usavam as cavernas para conferir mistério à voz complexifica o problema, dada sua importância para a alucinação colectiva, e que ainda nos começos da modernidade foi manipulado por esse enorme inventor que foi Athanasius Kirchner. Mas os sons passam e as imagens ficam. O silêncio milenar dos sons pré-históricos, que durará sempre, deixa entrever alguns dos usos primitivos da caverna.

Existe uma diferença essencial nas gravuras ao ar livre, como as de Foz Côa. Sendo inegável que partem da mesma cavidade de imaginar, da mesma vontade de fixar, tal como as imagens da caverna, não deixa de ser sugestivo pensar que correspondem a outra lógica, bem distinta daquela das pinturas nas cavernas, de algum modo ligadas a rituais e a sacrifícios de cuja natureza apenas se pode suspeitar. Por seu lado, as imagens ao ar livre oferecem-se ao olhar e ao céu, e a todos, correspondem a uma relação com o mundo bem menos hermética e obscura que a da caverna, sem serem menos enigmáticas.

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