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ArteImprimirDicionário critico

Georges Bataille

José Bragança de Miranda

Deixando de lado aspectos biográficos, Georges Bataille é um dos nomes mais influentes do pensamento e das artes do século XX. A sua obra deixou marcas importantes na filosofia, na ficção, na arte e na economia, sendo ainda hoje largamente influente.

Palavras chave: 

Fortemente marcado pelo pensamento de Hegel e de Nietzsche, este autor por muitos referidos como ligado ao surgimento do pós-modernismo, inscreve-se de facto numa forma sintética da modernidade, caracterizada pela articulação do racionalismo e do romantismo, já anunciada na Fenomenologia do Espírito (1807) de Hegel. Bataille assistiu às famosas lições de Alexandre Kojève sobre a fenomenologia hegeliana entre 1933 e 1939. O projecto especulativo hegeliano correspondia à síntese destas duas formas da experiência, fechando a história num círculo, no qual se joga a superação das dicotomias constitutivas da metafísica Ocidental - a de sujeito e objecto, de conceito e imagem e, acima de tudo, de cultura e natureza. O pensamento pós-hegeliano tendeu a interpretar esta síntese a partir de uma determinação total do racionalismo, um pouco como já o fizeram Karl Marx e Nietzsche. É no interior deste círculo que a estratégia intelectual de Bataille se desenvolve, numa espécie de guerrilha em todas as frentes do real. Em vez de um salto para a natureza ou para a carne, trata-se de usar as suas potencialidades contra as formas históricas que foram configuradas. É neste sentido que se pode dizer que este importante escritor cria uma forma original de primitivismo, ligado ao excesso, àquilo que a vida tem de transbordante, através de uma série de estratégias que acabaram por se revelar muito influentes e que se assemelham à defesa da inversão do platonismo proposta por Nietzsche: aonde Platão afirmava o ideal este contrapõe a matéria, à alma opõe o espírito, ao paraíso a Terra, etc. Esta estratégia está já consignada no que Bataille define como «baixo materialismo» que constitui todo o seu programa na revista Documents (1929-1930), onde adquire o seu estilo muito próprio. Desde sempre ligado à actividade editorial, em 1946 inicia a publicação da revista Critique, que se publica ininterruptamente até aos nossos dias e onde foram publicados os principais autores franceses, como Maurice Blanchot, Roland Barthes, Pierre Klossowski, Michel Foucault, Gilles Deleuze, entre muitos outros. Exemplo crucial desse abaixamento» do ideal é o pequeno ensaio dos anos 30 sobre o dedo grande do pé, que Bataille volta contra o corpo erecto, revelando algo de essencial da sua estratégia - o recurso ao fragmento contra a totalidade; à horizontalidade contra a verticalidade, a qual serve de base à sua crítica radical da arquitectura. Este tipo de posição implica uma confiança talvez excessiva na dominância das formas normais e utilitárias da vida, a qual nunca a chega a ser visada no seu conjunto, traço que o afasta claramente do marxismo. A proximidade com as teses da desconstrução de Jacques Derrida é, neste ponto, patente.

Senhor de um estilo veemente e aforismático, é na ficção que Bataille leva ao extremo a crítica do ideal e da normalidade, por ele encarada como média estatística, que transforma em monstruosidade tudo aquilo que excede a «média». Daí a estratégia de voltar o monstruoso ou o abjecto contra a idealização matemática ou estética. É exemplar neste contexto a ficção História do Olho (1928), onde a obscenidade e o abjecto são levados ao extremo, contaminando a totalidade da narrativa, embora na parte teórica da sua obra exista um maior balanceamento entre horror e êxtase, entre a vida normal e o excesso, como se comprova em livros como Erotismo (1957), Experiência Interior (1954) e até mesmo nos seus livros mais ligados ao primitivismo como é A Parte Maldita (1949) ou Lascaux ou o Nascimento da Arte (1955). Trata-se em todos os casos de combater as formas históricas da sexualidade, da economia ou dos objectos industriais, perturbando-os pela aparente «defesa» da morte, dos sacrifícios humanos e do horror. A insistência nestes temas tendeu a desvirtuar a lógica impecável do pensamento de Bataille, levando autores como Julia Kristeva, Rosalind Krauss ou Yves-Alain Bois a fazer dele o modelo das estéticas da «abjecção» e do «informe». Estes temas inscrevem-se, todavia, numa posição mais complexa, cuja avaliação está ainda em curso. Aliás, um pensamento está vivo quando não é facilmente dominável. Esta é ainda uma lição batailleana.

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