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GRUTA COSQUER


Localizada junto à base de uma falésia do Cabo de Morgiou, a gruta Cosquer integra o maciço costeiro das Calanques de la Triperie, entre as localidades de Les Goudes e Cassis, junto à cidade de Marselha, no Sudeste de França.

A abertura da cavidade encontra-se, actualmente, 37m abaixo do nível médio das águas do Mediterrâneo e o acesso às duas salas com representações faz-se através de uma longa galeria submersa, com cerca de 175m de comprimento.

Pela sua particular situação, esta gruta parcialmente submersa constitui uma evidente demonstração das dramáticas transformações de natureza paleoambiental verificadas no nosso planeta nas últimas dezenas de milhar de anos.

Com efeito, à época da realização das pinturas e gravuras que a tornaram célebre, a gruta Cosquer encontrava-se a uma distância de cerca de 5km da linha de costa, em resultado do fenómeno regressivo que afectou o nível das águas do mar e que levou este a situar-se 110-120m abaixo do actualmente verificado.

A descoberta da cavidade teve lugar em Setembro de 1985, tendo, contudo, a sua existência permanecido desconhecida, quer das autoridades, quer da comunidade científica, quer mesmo do público em geral, até ao dia 3 de Setembro de 1991.

Só então, e na sequência de um acidente mortal que vitimou três mergulhadores amadores, o seu descobridor, Jean Cosquer, instrutor e mergulhador profissional, decidiu comunicar às entidades oficiais a existência da gruta e o seu potencial interesse arqueológico. Esta informação rapidamente seguiu a devida tramitação, dela resultando, entre os dias 18 e 20 Setembro, a realização de uma primeira missão exploratória e de avaliação arqueológica, sob a responsabilidade dos investigadores Jean Courtin e Jean Clottes, este último especialista em arte paleolítica.

De imediato foi reconhecida a sua extraordinária importância, a qual haveria de determinar, nos anos imediatamente subsequentes, o lançamento de um primeiro programa de trabalhos e de estudos preliminares, levado a cabo por uma equipa de investigação interdisciplinar coordenada por aqueles dois pré-historiadores.

A logística especialmente pesada, por um lado, mas delicada, por outro, que uma acção de tal natureza e envergadura envolve, associada à descoberta, em 1994, da gruta Chauvet, estiveram na origem da decisão de suspender, temporariamente, a continuação dos trabalhos na gruta Cosquer e proceder ao encerramento da sua entrada.

Estes, apenas viriam a ser retomados em 2001 e depois prosseguidos em 2002 e 2003, tendo conduzido à elaboração e publicação, já em 2005, de um primeiro estudo monográfico aprofundado sobre a arte parietal presente na cavidade, da autoria de Jean Clottes, Jean Courtin e Luc Vanrell.

Como foi referido, a abertura e a galeria de acesso à zona mais profunda da gruta encontram-se, actualmente, submersas. As representações artísticas identificadas e que se conservaram até aos nossos dias, situam-se, unicamente, naquela zona. Esta integra duas grandes áreas, uma a Sul e outra a Norte, ambas compreendendo espaços emersos e parcial ou totalmente imersos.

Na primeira, destacam-se os locais da Grande Salle, da Salle du Félin e da Salle Basse. Na segunda, encontramos a Salle Nord, o Petit Puits e o chamado Grand Puits, uma diaclase na rocha que, posteriormente, foi aproveitada e transformada numa importante conduta vertical da rede cársica, com uma altura de aproximadamente 54m, 24 dos quais hoje em dia submersos.

As representações existentes imediatamente acima do nível da água encontram-se em óptimo estado de conservação, prova de que aquele se tem mantido estável desde o último máximo transgressivo, ocorrido, sensivelmente, há cerca de 5.000 anos antes do presente. Quanto às zonas inundadas, se, porventura, também foram objecto de aproveitamento para a realização de pinturas e/ou gravuras, as mesmas terão sido totalmente destruídas pela acção corrosiva conjunta das águas e dos organismos marinhos, delas não restando, por isso, qualquer evidência ou vestígio.
 Os dados mais recentemente publicados pelos investigadores responsáveis pelo estudo da gruta Cosquer, assinalam a existência de um total de 479 representações no seu interior.

Este conjunto foi estabelecido com o recurso a duas únicas técnicas, a gravura e a pintura. A primeira, tanto foi realizada através do simples traçado digital, como, também, do traço inciso fino, praticado com um objecto apontado ou cortante (sílex, fragmento de osso ou mesmo a extremidade de uma simples pequena concreção) ou, mais raramente, do traço inciso largo, efectuado com um instrumento apropriado.

Em relação à pintura, ela emprega dois únicos pigmentos naturais: o carvão vegetal, usado tanto sob a forma de “lápis” para desenhar o contorno das figuras, como aplicado através da técnica de pulverização; a argila vermelha, presente nas paredes e tecto da gruta e também ela utilizada recorrendo a este último procedimento.

Quanto à iconografia, a gruta Cosquer revela a existência de quatro categorias de representações, a saber: as figuras zoomórficas (177), onde se reconhecem onze espécies diferentes, as figuras antropomórficas (66), os sinais abstractos e/ou estruturados (216) e um conjunto de figuras indeterminadas (20).

Assim, das espécies animais terrestres presentes, a que ocorre em maior número são os cavalos, com sessenta e três animais representados, constituindo, por isso, 35,6% do total das figuras zoomórficas. Quarenta e cinco animais são gravados e destes, apenas um não é realizado através de um traçado inciso fino. Quanto aos restantes, dezoito são desenhados e/ou pintados a carvão vegetal e somente um é representado associando o desenho à gravura.

O segundo agrupamento animal melhor representado reúne as cabras montesas e as camurças (18,1%). As primeiras, em número de vinte e oito, são todas feitas por gravura, com a excepção de três desenhadas a carvão. Relativamente às quatro camurças presentes, são também todas estabelecidas por gravura.

O terceiro grupo mais representado corresponde aos bovinos, com vinte e quatro figuras (13,6%). Nestas, são reconhecíveis dez bisontes, sete auroques e os restantes sete animais são tidos como indetermináveis. Do ponto de vista da técnica de representação, dezoito animais são gravados, cinco pintados e um combina as duas técnicas. Nos animais gravados incluem-se os sete auroques, os sete bovinos indeterminados (quatro deles com um traço inciso largo) e quatro bisontes. Dos restantes seis bisontes, cinco são pintados e um foi primeiro pintado e depois gravado.

Em quarto lugar, com dezassete animais figurados (9,6%) situam-se os cervídeos, que contemplam onze veados, quatro corças e dois megaceros. Deste grupo, apenas um animal (um veado) é totalmente desenhado a carvão vegetal, catorze são exclusivamente gravados e dois (um megaceros e um segundo veado) combinam as duas técnicas. Ainda no âmbito das representações de animais terrestres claramente identificáveis, assinale-se a presença de um antílope saïga e de um felino (1,1%).

A influência da proximidade do meio marítimo na iconografia da gruta Cosquer, o que faz dela um caso singular no âmbito da arte parietal paleolítica, traduz-se pela presença, também, de um conjunto de dezasseis figuras de animais marinhos (9%). Destes, individualizam-se três pinguins desenhados a carvão vegetal e nove representações de focas, a que se juntam quatro figuras de peixes e/ou cetáceos, todas concretizadas por gravura.

Para encerrar com o enunciado das representações de carácter zoomórfico, resta referir a existência de três animais híbridos (1,7%), nos quais a um corpo ou a cabeças de cavalo são associados, uma cabeça de alce, no primeiro caso, ou chifres de bisonte, no segundo, e, ainda, um total de vinte figuras animais tidas por indetermináveis (11,3%).

Quanto às figuras de índole antropomórfica, estas reúnem sessenta e cinco impressões de mãos em negativo, seis representações sexuais (quatro vulvas e dois falos, um deles duvidoso) e uma figura de carácter híbrido. Esta, apelidada de o “Homem Morto” é representada por um corpo humano com cabeça de foca, deitado de costas e aparentemente trespassado por um enorme projéctil com barbelas.

Em relação às mãos pintadas, na sua esmagadora maioria atribuídas a adultos (dado que, apenas três, são tidas como infantis), quarenta e quatro delas (67,7%) foram realizadas por vaporização de carvão vegetal, enquanto nas restantes vinte e uma (32,3%) o pigmento empregue foi a argila de coloração vermelha, directamente recolhida das paredes e tecto da cavidade.

Das quatro vulvas, três são pintadas e uma gravada. Os falos, um é gravado com algum realismo, o outro é pintado. O híbrido antropomórfico, por seu turno, foi estabelecido por gravura, mediante um traçado inciso fino, mas profundo.

Os sinais abstractos e/ou estruturados constituem a maioria das representações realizadas na gruta Cosquer, representando quase metade delas (45,1%).

No seu seio foram individualizadas várias categorias, a saber: sinais emplumados e/ou com barbelas (15,5%), sinais em barra (25,1%), pontos (5,8%), sinais compósitos (22,2%), em banda (7,2%), sinuosos (2,4%), ovalados (3,8%), rectangulares (8,6%), de tipo “Placard” (1%) e, por último, os sinais apelidados de diversos (8,2%).

Em setenta e três situações (34,8%), este conjunto diversificado de sinais ocorre em associação com representações animais, ou com representações antropomórficas (negativos de mãos e ser híbrido). Contudo, e tanto quanto foi possível perceber, a repartição espacial global de todos estes motivos parece não obedecer, aparentemente, a nenhuma estrutura gráfica ou temática organizativa particular.

Do ponto de vista da técnica de execução, a grande maioria destes sinais exprime-se através da gravura (76,8%), sendo as restantes concretizadas pela pintura. Neste caso, trinta e quatro sinais são executados com carvão vegetal (70,8%) e os outros catorze com argila.

Finalmente, e para encerrar a descrição do conjunto iconográfico presente na gruta Cosquer, resta mencionar vinte figuras e/ou traços, que os investigadores responsáveis pelo seu estudo consideram impossíveis de atribuir, com segurança, a qualquer uma das três grandes categorias antes referidas. Desse conjunto, doze representações são gravuras e as outras oito foram realizadas com carvão vegetal.

A natureza dos vestígios encontrados na zona decorada da gruta faz excluir a possibilidade da mesma ter sido, alguma vez, utilizada como habitat pelas populações pré-históricas. Isso não significa, contudo, que a cavidade não tenha conhecido “visitas” com alguma regularidade, como parecem indicar as estruturas de combustão e os restos de archotes e lamparinas nela encontrados, o impressionante número de traçados digitais presentes em algumas paredes e tectos dos espaços decorados e, ainda, a própria profusão de representações presentes nestes mesmos locais.

Dado o momento da sua descoberta oficial e a natureza de um dos pigmentos empregues na realização das figuras (o carvão vegetal), a gruta Cosquer foi das primeiras a beneficiar da possibilidade de ver alguma da sua iconografia datada de forma directa pelo método do C14 com AMS, o que a transformou, durante alguns anos, na jazida de arte parietal paleolítica com o maior número de datações absolutas a nível mundial.

As quase três dezenas de datações numéricas (27) actualmente disponíveis sugerem, com relativa coerência, a existência de duas etapas distintas na realização das representações no interior da cavidade.

A primeira fase situar-se-ia no intervalo de tempo compreendido entre 29.000 e 24.000 anos antes do presente, coincidindo com o denominado período Gravettense. Desta altura dataria a totalidade das impressões de mãos em negativo (como indica o conjunto de datações por radiocarbono nelas obtidas), mas, também, algumas das gravuras (que são recobertas por aquelas) e certas figuras zoomórficas pintadas com carvão vegetal (igualmente datadas directamente pelo referido método).

A segunda fase, que, tanto ao nível das figuras zoomórficas, como de uma parte substancial dos sinais abstractos e/ou estruturados, os investigadores reconhecem não ser possível diferenciar, quer do ponto de vista da conservação das representações, quer da sua temática, quer ainda das convenções de representação, da etapa anterior, corresponderia, genericamente, ao período Solutrense, situando-se entre 19.000 e 18.000 anos antes do presente.

Esta continuidade no domínio das crenças e respectivas expressões iconográficas, que parece perpetuar-se ao longo de uma dezena de milhar de anos, poderá configurar, tal como acontece noutras grutas, designadamente na de Parpalló, a afirmação de uma perenidade ou padronização comportamental no âmbito da representação simbólica, desenvolvida pelas comunidades humanas do Paleolítico Superior estabelecidas junto à orla costeira do Mediterrâneo Ocidental.


Para saber mais:
CLOTTES, Jean, COURTIN, J. et VANRELL, L. (2005), Cosquer redécouvert, Paris, Seuil, 255 p., 209 fig.


Websites:
http://www.culture.gouv.fr/culture/archeosm/en/fr-medit-prehist.htm

http://fr.wikipedia.org/wiki/Grotte_Cosquer
http://www2.cnrs.fr/presse/journal/2329.htm
http://jlvillon.club.fr/cosquer.htm
http://www.speleogenesis.info/archive/publication.php?Type=publication&PubID=3265

http://www.futura-sciences.com/fr/doc/t/prehistoire/d/la-grotte-cosquer-sanctuaire-paleolithique-sous-la-mer-a-marseille_498/c3/221/p1/
http://www.paca.culture.gouv.fr/dossiers/cosquer/index.html#
http://presse.ffspeleo.fr/article.php3?id_article=1986
http://www.clemi.ac-aix-marseille.fr/cdc07/pdf/15C.pdf
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